20
mar
10

Amores impossíveis, fundamentalismo religioso e homossexualidade em “O pecado da carne”

“O pecado da carne” (“Eyes wide open”) é o longa de estreia do israelense Haim Tabakman. Exibido na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, passou pelo Brasil durante o Festival Mix de 2009. Polêmico e arrebatador, é um daqueles filmes que devem ser vistos e discutidos tanto pelo tema quanto pelo apuro de seu roteiro e fotografia.

Num bairro ortodoxo de Jerusalém, o açougueiro e pai de família Aarão recebe a visita do jovem Ezri, um forasteiro que lhe pede para usar o telefone. Não sei se fui influenciada por já saber a sinopse do filme, mas para mim o jogo de sedução desses dois homens começa nessa primeira aparição de Ezri. Personagens andarilhos são sempre fascinantes. O encanto produzido pelo desconhecido, o personagem que nos chega sem passado, sem casa e sem família, é figura recorrente em filmes. São geralmente pessoas livres nas quais a gente pode se inspirar. Se Ezri seduz, é desse “mal” que Aarão precisa para conseguir viver, assim como diz durante um dos diálogos do filme.

Apesar de, ao fim do longa, a história parecer clara, o filme caminha a partir de rumores. Existem poucas certezas exceto a impossibilidade de concretização do relacionamento dos dois. A reação da comunidade, da família ou dos próprios personagens que se envolvem amorosamente são difíceis de serem previstas. Ao espectador, fica complicado confirmar o que sabe ou o que não sabe certo personagem. O que está claro é a ameaça, a espionagem, a violência que está para surgir e o pecado de um sentimento proibido e abominado.

Serem judeus ortodoxos é o de menos – apesar de ser, absolutamente, o elemento que causa mais estranhamento. Resta saber se a história poderia ser reescrita se os dois fossem, por exemplo, cristãos fervorosos, ou, então, cristãos nem tão fervorosos. Ou nem mesmo cristãos. “O pecado da carne” é feito no ambiente exótico do judaísmo, regido por regras que não são muito compreensíveis. Talvez funcione para distanciar essa história do nosso cotidiano, catalisando essa tragédia. Mas e aí, será que estamos mesmo tão distantes dessa reprovação sem limites, dessa identificação pejorativa da homossexualidade com o mal? Uma pesquisa rápida no google sobre “PCL 122” responderia a minha pergunta.

“Pecado da carne” está para ser lançado nos cinemas. Apesar de não ter encontrado a confirmação, a data provável é 2 de abril.

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“O pecado da carne” (“Eyes wide open” / “Einaym pukuhot”), de Haim Tabakman, 91 min.

20
mar
10

Mostra Brasília Ano 10 fará retrospectiva do cinema em curta-metragem da cidade

Aluízio Alves

"A menina espantalho", de Cássio Pereira dos Santos

O formato clássico de experimentação é protagonista da mostra Brasília Ano 10, que será realizada no CCBB Brasília a partir do dia 6 de abril. Como parte das comemorações (e porque não comemorar?) do aniversário de 50 anos da cidade, serão exibidos curtas-metragens produzidos entre 2006 e 2009.

O nome da mostra faz referência ao filme de Geraldo Sobral Rocha. O curta-metragem “Brasília Ano 10″ foi produzido na década de 70 e explora o espaço urbano de Brasília em sua primeira década de existência. Ano 10 é também o que nos encontramos agora. Diante de uma produção de filmes ampla e diversificada, a cidade se impõe como um dos mais importantes pólos de cinema do país.

A ideia da mostra Brasília Ano 10 é atualizar o público de Brasília do cinema que se está produzindo na cidade. Os curtas foram organizados em seis blocos, de acordo com uma característica comum. São eles: Cinema de Escola - filmes produzidos em universidades ou cursos de cinema e comunicação -; Primeira Visão – os primeiros filmes de alguns cineastas da cidade -; Cenas de Brasília (I e II) – olhar contemplativos ou críticos sobre a cidade, lugares reconhecíveis e a busca pela memória -; Lirismo – cinema de sensações – e, finalmente, Outros Olhares – experimentos de forma e conteúdo.

Fazem parte da mostra os filmes “Menina espantalho” (2008), de Cássio Pereira dos Santos – premiado em diversos festivais de cinema infantil – “Borralho” (2006), de Arturo Sabóia e Paulo Barbosa – ganhador de prêmios de melhor filme, ator e atriz em diversos festivais -; “A noite por testemunha” (2009), de Bruno Torres – ganhador de prêmios no último Festival de Brasília do Cinema Brasileiro -; “Oficina Perdiz” (2006), de Marcelo Díaz – esteve em mais de 40 festivais nacionais e internacionais, sendo premiado diversas vezes – e “Entre cores e navalhas” (2007), de Catarina Acciolly e Iberê Carvalho – destaque em festivais de diversidade sexual -, entre outros. Para rever ótimos filmes e conhecer aqueles que a gente ouviu falar, mas não sabia onde e quando seriam exibidos.

Ajude a divulgar! A entrada é franca e há transporte gratuito para todos os dias.

Serviço:

Mostra Brasília Ano 10

Período: De 06 a 11 de abril de 2010

Local: CCBB Brasília – SCES, Trecho 02, lote 22 – Sala de Cinema e Vídeo

Informações: 3310-7087

Entrada Franca

Classificação Indicativa: Consultar Programação

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Programação por bloco de exibição:

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Primeira Visão – 06/04 (20h30), 08/04 (16h30) e 10/04 (18h30)

"Borralho"

"Ana Beatriz"

Borralho, de Arturo Sabóia e Paulo Barbosa (Brasil, 2006) Cor / DVD / 17 min / Livre – Baseado no conto “A fogueira”, de Mia Couto, em uma simples e isolada casa no campo, um velho casal se vê diante da proximidade da morte. Por conta disso, o marido faz uma estranha proposta a sua mulher.

Ana Beatriz, de Clarissa Cardoso (Brasil, 2008) Cor / DVD / 9 min / 14 anos – Ana Beatriz e Paulo Roberto ainda não se conhecem, mas foram feitos um para o outro. E desde cedo o dia promete… Ser igual a outro qualquer. Filme baseado no conto homônimo de Juliano Cazarré.

Dona Custódia, de Adriana de Andrade (Brasil, 2007) Cor / 35mm / 13 min / Livre – Baseado no conto homônimo do escritor Fernando Sabino, o curta-metragem narra a estória de um escritor solitário que tem sua rotina alterada pela presença de sua nova empregada: Dona Custódia

As fugitivas, de Otavio Chamorro (Brasil, 2007) Cor / 35mm / 13 min / 12 anos – Um casal do barulho vai se meter em altas confusões.

A descoberta do mel, de Joana Limongi (Brasil, 2009) Cor / 35mm / 16 min / 16 anos – Filme de arte e ensaio, baseado na pintura “discovery of honey” de Piero di Cosimo, cria relações entre a pintura, a mitologia grega e a performance. Uma mulher se banha de mel e descobre a dimensão mitológica do culto a Dioniso, deus da loucura sagrada, do mel e do vinho, da vegetação e da metamorfose.

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Cinema de Escola – 06/04 (18h30), 08/04 (20h30) e 10/04 (16h30)

"Feijão com arroz"

"Café do amanhã"

Cuidado! Palhaços, Pablo Peixoto (Brasil, 2008) Cor e P&B / DVD / 14 min / Livre – O vídeo conta a trajetória de carreira de dois irmãos, Ankomárcio Saúde, 29 anos e Ruiberdan Saúde, 27 anos, que largaram seus empregos em busca um sonho. Serem palhaços. Sem apelar para sentimentalismos, a proposta é mostrar que mesmo em um país desprovido de políticas públicas para cultura, é possível viver desta inusitada profissão.

Feijão com arroz, de Daniela Marinho (Brasil, 2009) Cor / DVD / 8 min / Livre – Uma menina descobre seu cotidiano através sons, barulhos e ruídos.

Memórias de Cinema, de Bruna Carolli (Brasil, 2009) Cor/ DVD / 10 min / Livre – José Carlos Avellar, Paulo Betti, Lula Carvalho e Murilo Salles são homens que contaram suas histórias de paixão pelo cinema. Um crítico, um ator, um diretor de fotografia e um diretor, homens repletos de lembranças.

Meu Jardim, de Thiago Sutir e Ana Pieroni (Brasil, 2009) Cor/ DVD / 13 min / Livre – Madalena é uma jovem simples de uma natureza romântica e obsessiva pelo sonho do amor eterno. Meu Jardim é um curta-metragem que mostra a visão dessa personagem apaixonante e intrigante, que em meio as suas fantasias, é capaz de nos envolver em seu jardim de flores.

Café de Amanhã, de Chico Acioli (Brasil, 2007) Cor / DVD / 20 min / 18 anos. Uma pequena família mantém um hábito contrário à moral tradicional. Por viver na intimidade da casa a empregada sabe do que acontece. Chocada tenta administrar os sentimentos confusos que a despertam.

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Cenas de Brasília I – 06/04 (16h30), 08/04 (18h30) e 10/04 (20h30)

"Raul de Xangô"

"A noite por testemunha"

Raul de Xangô, de Erico Cazarré (Brasil, 2008)Cor / DVD / 17 min / Livre – Sou um viandante na terra, de onde vim não me pergunte, sou apenas um transeunte entre a paz e a guerra. Documentário mostra a trajetória de vida de um místico brasiliense.

Dia de visita, de André Luis da Cunha (Brasil, 2007) Cor / 35 mm / 25 min / 12 anos – Dona Sônia vai ao presídio, é dia de visita.

A noite por testemunha, de Bruno Torres (Brasil, 2009) Cor / DVD / 24 min / 14 anos – Cinco rapazes amigos se encontram; um índio se perde numa cidade desconhecida. Juntos, eles viverão uma noite de inconseqüência e culpa. Este curta metragem é uma adaptação de um acontecimento real que chocou o Brasil.

Brasília (Título Provisório), de J. Procópio (Brasil, 2008) Cor / DVD / 15 min / 14 anos – Edu é um curta-metragista com um argumento: a construção de Brasília fracassou, todos abandonaram as obras pela metade – e quarenta e cinco anos depois um antropólogo, uma arquiteta e um documentarista fazem uma excursão arqueológica às ruínas da construção. E agora? Como filmar essa porra?

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Cenas de Brasília II – 07/04 (16h30), 09/04 (18h30) e 11/04 (20h30)

"Oficina Perdiz"

"A saga das candangas invisíveis"

Um Certo Esquecimento, de André Carvalheira (Brasil, 2008) Cor / DVD / 13 min / Livre – Numa banca de revistas, um assassinato e a explosão de uma estrela perturbam o cotidiano e o tempo.

Bem vigiado, de Santiago Dellape (Brasil, 2007) Cor / DVD / 14 min / 14 anos – Bira vigia carros. Josiane vende balinha no sinal. Daqui da janela dá pra ver que eles se gostam.

Oficina perdiz, de Marcelo Díaz (Brasil, 2006) Cor / 35mm / 20 min / 12 anos – DF. SCRN 708/9. Entre os Blocos C e D. Área pública. Brasília DF. Perdiz e a Oficina. Entre peças mecânicas e teatrais

A saga das candangas invisíveis, de Denise Caputo (Brasil, 2008) Cor / 35mm / 15 min / 14 anos – Menos de quatro anos para erguer uma cidade. Milhares de operários. E a história delas…

Dias de greve, de Adirley Queirós (Brasil, 2009) Cor / DVD / 24 min / 14 anos – Uma greve de serralheiros é  deflagrada na periferia do Distrito Federal.Neste período, muito mais que um despertar para uma consciência de classe, os grevistas redescobrem uma cidade é um tempo que não lhe pertencem mais.

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Lirismo – 07/04 (20h30), 09/04 (16h30) e 11/04 (18h30)

"Entre cores e navalhas"

"Uma"

Menina espantalho, de Cassio Pereira dos Santos (Brasil, 2008) Cor / DVD / 12 min / Livre –  Luzia mora no campo com seus pais e o irmão Pedro. Quando o irmão começa a freqüentar a escola, Luzia mostra sua vontade em acompanhá-lo, mas seu desejo não é respeitado pelo pai autoritário. Enquanto vigia um arrozal, a menina busca outros caminhos para aprender a ler.

A menina que pescava estrelas, de Ítalo Cajueiro (Brasil, 2008) Cor / DVD / 9min / Livre – Mais do que guias, as estrelas servem como uma parábola materna sobre a vida, na tentativa de fazer uma criança compreender o inexplicável.

Uma, de Nara Riella (Brasil, 2007) Cor / 35mm / 13 min / Livre – Uma mulher em reverse.

A minha maneira de estar sozinho, de Gustavo Galvão (Brasil, 2008) Cor / DVD / 14 min / 16 anos – Sueco é um jovem de 20 e poucos anos. Ele não sabe dançar, não sabe flertar, não sabe relaxar. Ele gostaria de ter alguém com quem conversar, mas está sozinho. Exceto por Melissa, a única mulher do mundo capaz de entendê-lo.

Para pedir perdão, de Iberê Carvalho (Brasil, 2008) Cor / 35mm / 17 min / 10 anos – Um homem atropela um táxi. Assim começa a busca alucinada de Pedro por Elisa em uma noite chuvosa de Carnaval.

Entre cores e navalhas, de Iberê Carvalho e Catarina Accioly (Brasil, 2007) Cor / 35mm / 10 min / 14 anos – O cabeleireiro Antony vai todos os dias de ônibus para o seu salão de beleza. Um dia percebe a cobradora Esperança, de beleza encoberta pelo mal trato. Com o passar dos dias, Antony e Esperança estabelecem uma relação que não pode ser qualificada por convenções sociais. Esse encontro desencadeia uma profunda mudança na vida e na aparência de ambos.

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Outros Olhares – 07/04 (18h30), 09/04 (20h30) e 11/04 (16h30)

"Mas na verdade uma história só"

"Tétrio, vazio e gelado"

Calango! de Alê Camargo (Brasil, 2007) Cor / DVD / 7 min / Livre – Um esfomeado calango decide que um grilo será sua próxima refeição… Mas as coisas não serão tão simples quanto ele imagina. Ação , humor e uma perseguição desenfreada numa animação 3D bem brasileira.

Tetrio, vazio e gelado, de Steve Eponto (Brasil, 2007) Cor / DVD / 5 min / Livre – Um jovem se encontra em um mundo distante, vazio e gelado. Ele não reconhece o lugar e muito menos sabe como foi parar lá. Ele tenta entender o que tudo aquilo representa, o significado de cada fragmento que vê. À medida que observa o ambiente, curiosamente, compreende mais sua natureza, alguma coisa lhe parece familiar…

Mas na verdade uma história só, de Francisco Craesmeyer (Brasil, 2009) Cor / DVD / 12 min / 14 anos – Dentro de um carro, Lana e Emílio, viajam pelas estradas de um centro-oeste quase esquecido. O asfalto rasga o planalto próximo à capital. Os dois não sabem, mas suas vidas poderiam ter sido, são e serão diferentes.

Roteiro para minha morte, de Pablo Gonçalo. (Brasil, 2009) Cor / DVD / 14 min / 16 anos – Nilo Kirilov deixa em seu blog o registro e o roteiro de um último pedido.

As estalactites de Davi, de R. C. Ballerini (Brasil, 2009) Cor / 35mm / 10 min / 10 anos – Davi não gosta de ir à igreja.

Verdadeiro ou Falso, de Jimi Figueiredo (Brasil, 2009) Cor / 35mm / 14 min / 14 anos – Marina errou o passo. Errou a estratégia. Errou de Adriano. A humilhação, assim como a cegueira, é uma conseqüência natural do amor.


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Programação por dia de exibição:

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6 de abril, terça-feira

16h30 – Cenas de Brasília I (81 min)

18h30 – Cinema de Escola (65 min)

20h30 – Primeira Visão (68 min)

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7 de abril, quarta-feira

16h30 – Cenas de Brasília II (86 min)

18h30 – Outros Olhares (62 min)

20h30 – Lirismo (61 min)

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8 de abril, quinta-feira

16h30 – Primeira Visão (68 min)

18h30 – Cenas de Brasília I (81 min)

20h30 – Cinema de Escola (65 min)

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9 de abril, sexta-feira

16h30 – Lirismo (61 min)

18h30 – Cenas de Brasília II (86 min)

20h30 – Outros Olhares (62 min)

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10 de abril, sábado

16h30 – Cinema de Escola (65 min)

18h30 – Primeira Visão (68 min)

20h30 – Cenas de Brasília I (81 min)

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11 de abril, domingo

16h30 – Outros Olhares (62 min)

18h30 – Lirismo (61 min)

20h30 – Cenas de Brasília II (86 min)

17
mar
10

Tudo Pode dar Certo (Whatever Works), a nova comédia de Woody Allen

Texto escrito por Otavio Chamorro, autor dessa comédia-pastelão aqui.

Uma vez, viram meu filme e me compararam a Woody Allen. Não vi muito sentido na comparação porque pensei inicialmente nos últimos três filmes que tinha visto do mestre: “Melinda e Melinda”, “Match Point” e “Cassandra’s Dream”. Os três com um ar mais dramático, com uma ironia da natureza humana essencialmente cruel ou trágica demais.

Em “Vicky Cristina Barcelona”, passei a olhar com mais atenção a comparação. O filme que mantém a inimitável ironia de Allen ainda vinha com a roda de coincidências que podem envolver as relações amorosas humanas, seja pela paixão, pela carência, pelo vazio ou pela loucura.

Hoje aceitei com orgulho a comparação: “Tudo Poder dar Certo” é de longe o melhor dos últimos filmes dele. Entendo quem prefira a violência e a frieza de “Match Point” ou a sensualidade de “Vicky Cristina Barcelona”, mas me reconheço nesse novo longa de Allen que está para ser lançado no Brasil.

O filme é um encanto: personagens superficiais com diálogos profundos, seja pela simplicidade inteligente ou pela arrogância estúpida. A verdade é que ninguém melhor que Woody Allen para, num argumento singelo, conseguir ironizar de seus personagens a partir de suas próprias falas e atitudes sarcásticas. As piadas são as que eu queria fazer, para mim mesmo ou para meus amigos. Ninguém escapa: gênios, idiotas, negros, judeus, gays, caipiras, transtornados ou até as católicas fervorosas de Mississipi. O filme deixa claro no início que não é seu objetivo fazer o público se sentir bem, mas até nessa mensagem direta Allen é irônico: o filme é um estímulo para o amadurecimento – você quer se sentir maduro e encontrar a felicidade como os personagens, do jeito que der. Afinal de contas, o título correto seria “o que der certo” e não “tudo pode dar certo”.

Pra acabar de me conquistar, o filme tem duas outras qualidades: o nome do protagonista, Boris, que me fez lembrar o outro melhor filme dele, “A última noite de Boris Grushenko” (Love and Death, 1974). E também a utilização do clichê (e o que torna mais interessante é a crítica aos clichês que o filme, nos seus diálogos deliciosos, faz) do personagem que fala com o público. E não estou sendo spoiler aqui – até no trailer isso fica óbvio. Filmes que falam com o público. Me lembrei de “Lisbela e o Prisioneiro” e de “Spice World”. E lembrar desses dois filmes após uma aula de cinema que é Tudo pode dar certo, só me faz pensar em uma coisa: Incrível!

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“Tudo pode dar certo” (Whatever works), de Wood Allen, 92 min

Lançamento nos cinemas em 30 de abril

31
jan
10

O Bolo do amor por Catherine Deneuve

Não consegui conter meu entusiasmo com “Pele de asno”. Pra quem ainda não foi convencido a assiti-lo pelo post anterior, aqui vai um trecho do filme.

“Pele de asno” (“Peau d’âne”), de Jacques Demy, 1970

Com Catherine Deneuve, Jean Marais e Jacques Perrin.

26
jan
10

Jacques Demy, filmes bonitos e idéias sobre “Onde vivem os monstros”

“Pele de asno” (“Peau d’âne”), de Jacques Demy (1970)

Um daqueles bem especiais. Influenciada pela Agnès Varda, fui assistir aos filmes do Jacques Demy – seu marido – e por conta dele me aproximei dos musicais. “Pele de asno” não foi fácil de encontrar e assisti-lo depois de tanta procura foi só delicioso. Catherine Deneuve é sua atriz-fetiche e aqui, neste filme realizado três anos depois de “Duas garotas românticas” e após a premiação de “Os guarda-chuvas do amor” em Cannes, está ela novamente. Ambientado em um reino distante,  uma rainha no leito da morte obriga o rei a fazer uma promessa: ele só se casaria outra vez se a pretendente fosse mais bonita que ela. Com a morte da mulher, o rei sai em busca da tal pretendente. No entanto, a única mulher mais bela que sua falecida esposa é sua filha, a princesa interpretada por Catherine Deneuve. Longe da culpa moral e sem entrar na discussão sobre o suposto incesto, a princesa pede conselhos à sua fada-madrinha que lhe proíbe de aceitar o pedido de casamento, ao qual a princesa tendia a ceder. Num ambiente ora infantil, ora surrealista, se desenvolve essa trama cheia de boas e más intenções. A estratégia para adiar a cerimônia é fazer pedidos de casamento difíceis de serem atendidos e, quando nenhum pedido pode mais ser feito, se refugiar em uma floresta vestindo uma pele de asno. E ali, trabalhar como criada e esperar que um príncipe note sua beleza enquanto todos  os outros a desprezam.

E porque não assistir – ou voltar a assistir – a esses três filmes de Jacques Demy? Me aproprio deles e os chamo de trilogia. “Pele de asno” é o menos musical, no sentido estrito, dos três. “Os guarda-chuvas do amor” é o primeiro filme totalmente cantado e, dizem por aí, roubou a Palma de Ouro de “Deus e o Diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha. “Duas garotas românticas” já valeria pelo dueto de Françoise Dorleac e Catherine Deneuve, irmãs na trama e na vida real. Doleac, em seu último filme, morre tragicamente na época do lançamento de “Duas garotas românticas”. Os três tem produção musical de Michel Legrand, compositor e pianista que é um dos grandes nomes do jazz.

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“A cidade das crianças” (“Les enfants de Timpelbach”), de Nicolas Bary (2008)

Bastante atrativo para crianças, mas fico em dúvida se é esse seu público-alvo. Certamente, de tão bonito está fácil de agradar adultos. Em tom fabulesco, garotos de mau comportamento são castigados pelos pais e professores. Os adultos decidem pregar uma peça nos pequenos ao abandonar a pequena cidade de Timpelbach por um dia, deixando-os desamparados. No entanto, os adultos são tomados como reféns pela cidade vizinha, o que os impede de voltar. Na ausência dos adultos, os pequenos se dividem em bandos, um deles formado por crianças boas e outro pelo grupo de crianças marginais. É aí que o filme se torna interessante. Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa. Da inocência infantil, pontuada por pequenas travessuras, o filme adquire um tom um pouco assustador. Já que os adultos estão ausentes, alguém deve ocupar o lugar deles. E as crianças apreendem fácil a truculência e a burocracia. Temperado por belíssimo figurino e fotografia – onde a verossimilhança está bem em segundo plano – é esta uma daquelas histórias fantásticas e de grande sensibilidade plástica.

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“Onde vivem os monstros” (Where the wild things are”), de Spike Jonze (2009)

Spike Jonze, tal qual Michel Gondry, saiu do vídeo clipe. A comparação destes dois vem, na minha cabeça, por terem uma forte marca autoral que é, de maneira abrangente, bem similar. Esta marca é a loucura ou estranheza, que em Gondry está presente mais nos artifícios de montagem e efeitos de câmera e que, em Jonze, se mostra mais forte na narrativa. Em “Onde vivem os monstros”, filme que andam chamando de infanto-juvenil, um garotinho mimado se reclusa em seu mundo imaginário, habitado por criaturas peludas que o consagram rei. O filme tem efeitos maravilhosos onde se percebe o cuidado com cada detalhe – não sei quanto tempo demorou a ficar pronto, mas é o primeiro longa de Jonze desde 2002. Plasticamente, o filme é impecável – os monstros me lembraram os da saga “A história sem fim”, alguém compartilha comigo essa impressão? Mas o que me impressionou mesmo foi a verossimilhança com situações típicas de criança. Me vi bastante neste filme. Na inocência das situações, nos bonequinhos de miolo de papel higiênico, na cabaninha feita na cama da mãe. O ponto de vista da criança está por completo e me arrisco a dizer que este é um filme audacioso sobre a infância, para adultos.

Veja também:

Versões para os personagens do livro que deu origem ao filme

Make a monster (esse link é bobo, ok?)

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“Pele de asno” (“Peau d’âne”), de Jacques Demy, 90 minutos

DVD pela Dreamland.

“Cidade das crianças” (“Les enfants de Timpelbach”), de Nicolas Bary, 95 minutos

DVD pela Califórnia Filmes.

“Onde vivem os monstros” (“Where the wild things are”), de Spike Jonze, 101 minutos

Em cartaz nos cinemas.

17
jan
10

“Não, minha filha, você não irá dançar”, novo filme de Christophe Honoré, estreou essa semana nos cinemas

Distante da badalação dos concorrentes ao Globo de Ouro, está o lançamento do novo de Christophe Honoré. O filme chega aos cinemas brasileiros com alguns meses de atraso, tendo passado pela mostra de São Paulo em outubro. Honoré é o diretor de “A bela Julie” (2007) e “Canções de amor” (2008) e deus queira que ele continue lançando um filme por ano.

"Não, minha filha, você não irá dançar" ("Non ma fille, tu n'iras pas danser", 2009)

Em “Não, minha filha, você não irá dançar”, Honoré traz alguns elementos que ja estavam presentes ao menos em dois de seus filmes anteriores: a obsessão com certos atores – grande ponto de reconhecimento de suas obras -, a crise no ambiente familiar e a iminência da morte. A protagonista, Lena, é agora interpretada por Chiara Mastroianni – filha de Marcelo Mastroianni e Catherine Deneuve. Chiara aparece no filme de 2007 num pequeno e charmoso papel e, no de 2008, ganhando maior visibilidade como a irmã da protagonista. Louis Garrel, como não poderia deixar de ser, também está de volta. Por outro lado, Honoré deixa de lado o romantismo das músicas cantadas pelos personagens para abordar a intensidade de um drama feminino.

A ação que antes se desenvolvia pela tensão sexual, anda em “Não, minha filha…” a partir do drama da protagonista, uma mulher recém-divorciada em fuga. A primeira cena do filme adianta ao espectador o caos vivido por Lena. Numa estação de trem movimentada, ela procura o filho que se perdeu. Mantendo nos braços a outra filha pequena e carregando uma mala, ela grita pela criança e a encontra perto de um pombo ferido. Convencida pelos pequenos, ela esconde o pombo na bolsa e o leva para casa. No entanto, o pombo morre e Lena é acusada pelo filho, uma criança de cerca de dez anos – que, por mais contraditório que possa ser, é o ponto de equilíbrio da mãe – de não conseguir nem “manter um pombo vivo”. Lena é uma mulher confusa que busca apoio de seus pais controladores, cheia de vontades e desvontades, numa quase paródia da situação feminina. Uma grande personagem com uma grande interpretação de Chiara. Outro elemento bastante interessante desse filme é o espaço para o desenvolvimento de outros personagens. Há uma sequência primorosa onde se mostra a história que o filho de Lena lhe conta através de imagens de sua imaginação. Pausa admirável, assim como a trilha sonora a cargo de Anthony and the Johnsons.

Pra mim é muito dificil desvencilhar as três obras de Honoré. Acredito que, para quem ainda não conhece o trabalho do diretor, será um grande prazer ver os três filmes na sequência.

"A bela Julie" ("La belle personne", 2008)

"Canções de amor" ("Les chansons d'amour", 2007)

“Não, minha filha, você não irá dançar”, de Christophe Honoré,105 minutos.

Assista ao trailer do filme.

Lançamento em 15 de janeiro de 2010.

15
jan
10

Alguns dos filmes que concorrem ao Globo de Ouro de 2009 serão lançados nos próximos dois meses

A premiação do Globo de Ouro acontece no próximo dia 17 e, com o atraso que já é característico, alguns dos principais concorrentes estréiam no Brasil logo na sequência. Boa estratégia, não?

Veja aqui a lista completa dos concorrentes ao 67º Globo de Ouro. Na sequência, alguns dos filmes que serão lançados em breve.

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“Amor sem escalas” (“Up in the air”), de Jason Reitman.

Estréia em 22 de janeiro. Concorrente aos prêmios de melhor filme dramático, diretor, roteiro, ator e duas vezes a atriz coadjuvante.

Este filme lidera com seis indicações. Do diretor de “Juno” e “Obrigado por fumar”, é uma grande produção num disfarce despretensioso. O elemento inusitado da vez é George Clooney, executivo que trabalha numa empresa que é contratada para demitir funcionários. Com essa função, ele viaja todo o país e incorpora metodicamente os aeroportos em sua rotina. Quase impassível à angústia daqueles que demite, sua vida será bagunçada com a entrada de uma garota que propõe uma nova maneira de se realizar o trabalho na empresa. E assim como nos outros dois filmes de Reitman, o desenlace se distancia do convencional. Filme bom e divertido que, na categoria de melhor do ano, será encoberto pelos mais impactantes “Bastardos Inglórios”, “Preciosa” e “Avatar”.

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“Preciosa” (“Precious”), de Lee Daniels.

Estréia em 29 de janeiro. Concorrente aos prêmios de melhor filme dramático, atriz e atriz coadjuvante.

Nada de preconceito só porque este lançamento traz a Mariah Carey em um dos papéis e é produzido pela Oprah. O filme tem um apelo enorme que pode distanciar parte do público, é bem verdade, mas esse filme não é nada “Glitter”. Ainda não pude assisti-lo, mas pelo trailer me pareceu um filme bastante atrativo e, com certeza, vou querer ver logo na estréia. Ele é ambientado no subúrbio de Nova York, anos 80, onde vive uma adolescente pobre, negra e gorda que sofre abusos de seu pai e violência física de sua mãe. A garota está grávida e é mãe de uma criança apelidada de mongo por ser portadora de síndrome de Down. Na nova escola, para onde é obrigada a ir depois de ser suspensa da que estuda, Preciosa encontra ajuda e uma maneira de se refugiar de seus problemas. Bullying, preconceito, pobreza, e por aí percorrem as discussões que serão estimuladas pela fita.  Estou ansiosa pra saber qual o efeito deste filme.

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“Nine”, de Rob Marshall.

Estréia em 29 de janeiro. Concorrente aos prêmios de melhor musical ou comédia, atriz, atriz coadjuvante e canção original.

O novo musical do diretor de “Chicago” não foi bem aceito pelos críticos. Depois de “Avatar”, é um dos filmes mais apelativos do ano. Traz no elenco uma sequência de ganhadores de Oscar capaz de convencer quase qualquer pobre alma a assisti-lo. No entanto, é um filme regular pontuado por ótimas cenas. A música concorrente a melhor canção original – “Cinema italiano”, com Kate Hudson – é muito boa, assim como outras duas das nove canções do filme, a protagonizada por Fergie e a outra por Penelope Cruz. O título faz referência direta ao “81/2″ de Felinni. Referência que está também na trama do musical, onde um diretor de cinema sofre uma crise de criatividade. Entre Fergie e Mariah, fico com a segunda.

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“Guerra ao terror” (“The hurt locker”), de Kathryn Bigelow.

Estréia em 5 de fevereiro. Concorrente aos prêmios de melhor filme dramático, diretor e roteiro.

Disponível em DVD desde abril do ano passado, a estréia deste filme nos cinemas veio corrigir uma grande mancada do distribuidor. As obras que abordam este mesmo tema já ganharam um gênero próprio. E “Guerra ao terror” supreendeu muitos críticos e é considerado um dos melhores Iraq movie. Como não podia deixar de ser, é também um filme de ação que tem como protagonistas soldados que trabalham na ingrata tarefa de desativar bombas durante a guerra. No entanto, o filme não está a procura do soldado heróico e patriota. São homens que estão ali porque aquela é sua função – um dos níveis de uma guerra que é realizada sem muitos motivos. Filme imperdível.

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“Entre irmãos” (“Brothers”), de Jim Cheridan.

Estréia em 12 de fevereiro. Concorrente aos prêmios de melhor ator e melhor canção original.

Ótimo drama que traz novamente o tema da guerra, sendo desta vez o Afeganistão. É, assim como em “Guerra ao terror”, uma visão crítica dos abusos e motivos que envolvem esse embate com um elemento a mais, que é o drama insolucionável do protagonista. Dado como morto, ele volta para casa depois de ser tomado como refém pela tropa inimiga. Abalado e angustiado, ele reaparece e descobre que seu irmão – homem irresponsável e de comportamento adolescente – , esteve presente na vida de sua família durante a sua ausência. Resta agora tentar sobreviver a mais essa situação utilizando a mesma estratégia da guerra, a desconfiança. É mais um filme imperdível.

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“Simplesmente complicado” (“It’s complicated”), de Nancy Meyers

Estréia em 26 de fevereiro. Concorrente aos prêmios de melhor musical ou comédia, roteiro e atriz.

Uma das grandes comédias românticas do ano. O diferencial – ao menos da grande massa de comédias românticas – está em tomar como personagens homens e mulheres de meia-idade. Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin formam o triângulo amoroso nesta história na qual a esposa, depois de passar pelo divórcio, acaba se tornando a amante do ex-marido. É da mesma diretora de “Alguém tem que ceder” e “O amor não tira férias”. Não tenho muitos palpites sobre esse filme e tampouco é um tipo de cinema que me atrai. Talvez seja mais um que ficará ofuscado pela presença de outros filmes que são bem mais fortes.




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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