Texto escrito por Otavio Chamorro, autor dessa comédia-pastelão aqui.
Uma vez, viram meu filme e me compararam a Woody Allen. Não vi muito sentido na comparação porque pensei inicialmente nos últimos três filmes que tinha visto do mestre: “Melinda e Melinda”, “Match Point” e “Cassandra’s Dream”. Os três com um ar mais dramático, com uma ironia da natureza humana essencialmente cruel ou trágica demais.
Em “Vicky Cristina Barcelona”, passei a olhar com mais atenção a comparação. O filme que mantém a inimitável ironia de Allen ainda vinha com a roda de coincidências que podem envolver as relações amorosas humanas, seja pela paixão, pela carência, pelo vazio ou pela loucura.
Hoje aceitei com orgulho a comparação: “Tudo Poder dar Certo” é de longe o melhor dos últimos filmes dele. Entendo quem prefira a violência e a frieza de “Match Point” ou a sensualidade de “Vicky Cristina Barcelona”, mas me reconheço nesse novo longa de Allen que está para ser lançado no Brasil.
O filme é um encanto: personagens superficiais com diálogos profundos, seja pela simplicidade inteligente ou pela arrogância estúpida. A verdade é que ninguém melhor que Woody Allen para, num argumento singelo, conseguir ironizar de seus personagens a partir de suas próprias falas e atitudes sarcásticas. As piadas são as que eu queria fazer, para mim mesmo ou para meus amigos. Ninguém escapa: gênios, idiotas, negros, judeus, gays, caipiras, transtornados ou até as católicas fervorosas de Mississipi. O filme deixa claro no início que não é seu objetivo fazer o público se sentir bem, mas até nessa mensagem direta Allen é irônico: o filme é um estímulo para o amadurecimento – você quer se sentir maduro e encontrar a felicidade como os personagens, do jeito que der. Afinal de contas, o título correto seria “o que der certo” e não “tudo pode dar certo”.
Pra acabar de me conquistar, o filme tem duas outras qualidades: o nome do protagonista, Boris, que me fez lembrar o outro melhor filme dele, “A última noite de Boris Grushenko” (Love and Death, 1974). E também a utilização do clichê (e o que torna mais interessante é a crítica aos clichês que o filme, nos seus diálogos deliciosos, faz) do personagem que fala com o público. E não estou sendo spoiler aqui – até no trailer isso fica óbvio. Filmes que falam com o público. Me lembrei de “Lisbela e o Prisioneiro” e de “Spice World”. E lembrar desses dois filmes após uma aula de cinema que é Tudo pode dar certo, só me faz pensar em uma coisa: Incrível!
_________________________________________________________________________________________________
“Tudo pode dar certo” (Whatever works), de Wood Allen, 92 min
Lançamento nos cinemas em 30 de abril



Que delícia de texto. Pra mim, o Woody Allen que virou um sucesso era pretencioso e babaca, mas o dos últimos cinco anos me surpreende pela maturidade e bom jogo de ironias — mais criativas, menos óbvias e ególatras.
Que venha Whatever works!
hum, interessante. Queria alugar Vicky Cristina Barcelona para o meu irmão ver (ele nunca assistiu a nenhum filme do Woody Allen). Acho que vou esperar e levá-lo para ver Whatever Works. Se ele não gostar, posso culpar o Otavio pela dica.
A última noite de Boris Grushenko ainda é insuperável!
Adorei Whatever works, me parece uma paródia dos outros filmes de Wood Allen, de Annie Hall a Manhattan.