Arquivo para setembro \29\UTC 2009

29
set
09

“Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”

Chega ao Festival de Cinema do Rio “As praias de Agnès”,  último e derradeiro filme de Agnès Varda. Ela, a garota em meio aos rapazes da Nouvelle Vague, está hoje com 81 anos e acumula uma inquieta obra que conta com, além de ficções e documentários, fotografias e pinturas. Neste documentário autobiográfico, Varda fala de sua vida e de sua infância, trazendo como principal memória a imagem das praias que marcaram sua história. É um filme de despedida.

É muito fácil gostar da Agnès, principalmente sendo mulher. Os seus filmes não se encaixam numa política de gênero, mas trazem certa afetuosidade feminina a qual é difícil não se identificar. Seu olhar delicado repousa sobre temas acres, tece retratos de mulheres fortes e controversas. Tenho um postal dela colado no meu quarto, presente de alguém especial que viu essa foto em meio a várias outras e sem querer a escolheu. Presente certo que deixou na parede uma presença. Saiu na ilustrada de ontem uma pequena entrevista com a diretora que, mais do que me dar vontade de assistir ao “As praias de Agnès”, me lembrou um outro filme dela (título deste blog) que me marcou bastante e que também fala de morte, memória e praia.

“Como ninguém reclamou o corpo, foi enterrada em uma vala comum. Ela tinha morrido de morte natural sem deixar rastro. Imagino se quem a conheceu criança ainda pensa nela. Mas as pessoas que ela tinha conhecido recentemente se lembravam dela. Essas testemunhas ajudaram-me a contar as últimas semanas de seu último inverno. Ela deixou sua marca sobre eles. Eles falavam dela, não sabendo que ela tinha morrido. Não quis dizer a eles. Nem que o nome dela era Mona Bergeron. Eu mesma sei pouco sobre ela, mas parece-me que ela veio do mar.” (transcrição da narração de um trecho do filme)

Em “Sem teto nem lei”, Agnès faz uma apresentação comovente de sua protagonista, Mona, e sai em busca de seu passado. Uma andarilha morre de frio e numa espécie de “Cidadão Kane” feminino e desglamourizado, ela é analisada, após sua morte, pelos olhos dos outros, interrogados pela câmera de Varda e com a narração da própria autora. Mona, uma figura desajeitada que quase passa despercebida – oposta a ostentosa Cléo, protagonista de outro filme de Agnès -, reflete a generosidade e arrogância daqueles com quem se relaciona. Ela ri sozinha e mantém uma postura altiva, transformando-se num personagem cordial. É um bom filme para ser visto e revisto.

Duas imagens de “Sem teto nem lei” e a fotografia da parede, “Sofia Loren em Portugal”

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Outras coisas:

Reportagem da Folha de São Paulo sobre o novo filme da Agnès Varda

Cinemateca da embaixada da França

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Is anybody there?

Bom dia, boa tarde, boa noite. Primeiro post do primeiro blog. É hora de fazer as apresentações! Esse daqui é o Sem teto nem lei, blog onde pretendo falar das coisas que gosto. Bom, tudo acaba se resumindo a cinema porque foi assim que me eduquei, é com isso que eu trabalho, é isso o que estudo e é assim que me inspiro. Não que eu tenha alguma coisa especial pra falar… É que preciso olhar e comentar algumas coisas, aproveitar melhor as horas que passo na frente do computador e aposentar os drafts do gmail como guardião de idéias…

Sem teto nem lei é o título de um dos filmes dirigido por Agnès Varda, desculpa pra começar falando de cinema. É isso, rumo ao primeiro post!




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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