Arquivo para outubro \24\UTC 2009

24
out
09

Confira os selecionados para a mostra competitiva do FIC Brasília 2009 – parte 3

Parte 1

1. “Defamation”, de Yoav Shamir, co-produção Israel/Austrália/EUA/Dinamarca, 91 minutos

2. “El nino pez”, de Lucía Puenzo, co-produção Argentina/França/Alemanha, 96 minutos

3. “Francia”, de Andrián Caetano, produção argentina, 77 minutos

Parte 2

4. “Good Morning Aman”, de Claudio Noce, produção italiana, 105 minutos

5. “Hiroshima”, de Pablo Stoll, co-produção Uruguai / Colômbia / Argentina / Espanha, 80 minutos

6. “Nulle part terre promise”, de Emanuel Finkiel, produção francesa, 94 minutos

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Acabam aqui os posts sobre a mostra competitiva do FIC Brasília 2009. Esses são os últimos quatro filmes a integrar a seção. É isso, bom filme pra gente!

7. “Prince of Broadway”, de Sean Baker, produção dos EUA, 104 minutos

Um filme bem recomendado. É sobre uma grande cidade e seus imigrantes, dessa vez, Nova Iorque. Vem de uma já longa carreira internacional, arrebatando diversos prêmios do júri e público. O longa de Sean Baker chegou a ganhar simultaneamente, num mesmo dia, dois prêmios em dois festivais de continentes diferentes, o da audiência no Festival de Belfort e o do júri no Woodstock Film Festival. “Prince of Broadway” é a história de Lucky, imigrante ilegal de Ghana que trabalha para Levon, imigrante armênio dono de uma loja de produtos de moda falsificados. O conflito entra quanto uma mulher apresenta um garoto a Lucky e lhe diz que ele é seu filho. Ele é obrigado a cuidar da criança quando a mãe foge. Como não sabe seu nome, começa a chamá-lo de Prince. Isso ocorre enquanto Levon luta para salvar um casamento falido. Trama de enorme simplicidade que é tratada com realismo e humor.

[Update 17/11: Este foi o grande vencedor do XI FIC Brasília. Leia aqui comentários sobre o filme.]

8. “Tulpan”, de Sergei Dvortsevoy, produção do Cazaquistão, 100 minutos

Não caia na armadilha de achar que este é um filme entediante ou cheio de exotismos incompreensíveis à nossa cultura. Vencedor do prêmio Um Certain Regard do Festival de Cannes 2008 e primeiro longa-metragem de Sergei Dvortsevoy, é uma obra que foge de definições simplistas. É a história de pastores nômades filmada de forma semi-documental, mas também é uma história de amor cheia de misticismo, uma comédia e um drama familiar. Asa, o protagonista, retorna ao bando nômade de sua irmã na desolada Hunger Steppe para iniciar a carreira não promissora de pastor. Porém, antes de cuidar de seu rebanho, Asa precisa conquistar a única solteira elegível: sua misteriosa vizinha Tulpan. A história é tratada com humanismo e naturalidade num filme que reúne também camelos assustados e crianças travessas. Haverá neste caos certa dose de Kusturica? Mais um que entra pra lista daqueles que não perderei por nada.

[Update 17/11: Este filme é realmente sensacional, um dos grandes prazeres do XI FIC Brasília. Leia aqui comentários sobre ele, depois de tê-lo assistido]

9. “Tyson”, de James Toback, produção dos EUA, 90 minutos

Este filme também foi exibido na mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes. O documentário realizado por James Toback – de “The Gambler” e “Os dois mundos de Billie” – é um retrato do ex-boxeador Mike Tyson. Diferenciando-se da estratégia usual de outros documentaristas, o filme não inclui depoimentos de outras pessoas além do próprio Tyson, personagem único que não divide espaço nem com o diretor do filme, ausente em imagem – mas não da narrativa, pois é um filme de fortes marcas autorais, perceptíveis pela maneira em que o estado emocional do espectador e do personagem são manipulados. O filme dividiu as platéias por onde passou. Talvez, pela força polêmica de sentir simpatia por um estuprador condenado. A obra de Toback nos obriga a ver Tyson através de entrevistas antigas, depoimentos do ex-lutador e fotografias de arquivo, trazendo à tona um ser humano às vezes complexo e outras patético.

[Update 17/11: Clique aqui e veja comentários sobre este filme, após tê-lo assistido]

10. “Wakaranai” ou “Where are you?”, de Masahiro Kobayashi, produção japonesa, 104 minutos

“Wakaranai” é um filme de minimalismo dramático com poucos diálogos. Esteve no Festival de Locarno em agosto, gerando boas críticas. A história é centrada em Ryo, um garoto de 16 anos que é demitido do supermercado onde trabalha por roubar comida. Sem ter como cobrir a dívida da internação de sua mãe num hospital e, quando ela morre, do funeral, o garoto rouba o corpo da mulher e o coloca num pequeno barco. Ele então vai à Tóquio para encontrar alguém cuja identidade só será revelada ao final. Um adolescente em sua busca solitária pela salvação, a fome e a tristeza são os temas deste filme que nos apresenta um outro Japão, diferente do colorido e da modernidade a qual sua imagem é comumente associada.

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Minhas apostas:

“El nino pez”, de Lucía Puenzo, co-produção Argentina/França/Alemanha, 96 minutos

“Hiroshima”, de Pablo Stoll, co-produção Uruguai / Colômbia / Argentina / Espanha, 80 minutos

[Update 17/11: Um dos meus grandes enganos! Assisti “Hiroshima” e não gostei. Comentários sobre o filme aqui]

“Prince of Broadway”, de Sean Baker, produção dos EUA, 104 minutos

“Tulpan”, de Sergei Dvortsevoy, produção do Cazaquistão, 100 minutos

Acompanhe a programação diária pelo site do XI FIC Brasília.

22
out
09

Confira os selecionados para a mostra competitiva do FIC Brasília 2009 – parte 2

Vamos a segunda parte do post:

4. “Good Morning Aman”, de Claudio Noce, produção italiana, 105 minutos

Este é o filme de estréia do italiano Claudio Noce, premiado diretor em curtas-metragens. “Good Morning Aman” é todo filmado com câmera na mão e seu ritmo e temática tem tudo para atrair um público mais jovem. Este filme vem da Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2009, seleção anual de talentos novos ou promissores que é uma das seções de destaque do evento. O protagonista do filme é Aman, um garoto somaliano que, nas noites de insônia, perambula pelas ruas de Roma, cidade onde mora e trabalha. Numa dessas noites ele conhece Terry, um misterioso ex-pugilista de 40 anos. A relação ambígua entre os dois, o discurso sobre diferenças culturais, imigração e racismo formam o eixo central da obra. Pelas críticas que saíram das exibições em outros festivais, é um bom filme, mas não imperdível.

5. “Hiroshima”, de Pablo Stoll, co-produção Uruguai / Colômbia / Argentina / Espanha, 80 minutos

Será este o festival dos filmes latinos? Lucía Puenzo, Adrián Caetano e Pablo Stoll são nomes bastante representativos. E “Hiroshima” é outro filme que não perco por nada. Pra quem não se lembra de Stoll, em 2004 ele co-dirigiu “Whisky” com Juan Pablo Rebella. Cinco anos depois, ele lança “Hiroshima” no Festival de Toronto. Estou bastante curiosa pra ver esse musical silencioso baseado em fatos reais de narrativa aparentemente simples. O filme acompanha Juan, vocalista de uma banda de rock que não gosta muito de falar, que trabalha numa padaria de noite, mas some de dia. O filme é sobre o que acontece quando essa personagem desperta. E vale prestar atenção nas produções latinas que estréiam nos cinemas fora do circuito dos festivais. Existem aqueles filmes que passam despercebidos, outros que são honestos e alguns geniais. Sem dúvida, “Gigante”, filme uruguaio dirigido por Adrián Biniez e produzido pela mesma empresa que realizou “Hiroshima”, é genial e também deve ser visto.

[Update: Me redimo quanto a esse filme. Leia aqui comentários sobre ele, depois de tê-lo assistido]

6. “Nulle part terre promise”, de Emanuel Finkiel, produção francesa, 94 minutos

Finkiel foi assistente de direção de Godard e Kieslowski. Não vi seus filmes anteriores (“Madame Jacques on the Croisette”, “Voyages” e “Casting”), mas acredito que ele deve ter aprendido boas coisas. “Nulle part terre promise” é um multi-plot que segue vários personagens que não se relacionam entre si, no entanto, têm em comum a busca de sua terra prometida na Europa contemporânea. São eles o gerente de uma fábrica, um estudante que filma uma reportagem enquanto aguarda uma ligação de seu amante e um homem curdo e seu filho que tentam entrar ilegalmente na Inglaterra. “Nulle part terre promise” vem do Festival de Locarno 2008 e foi o ganhador do prêmio Jean Vigo. Grandes expectativas para esse filme premiado de um diretor que para mim ainda é desconhecido.

E ainda faltam quatro filmes! Amanhã postarei sobre duas produções dos EUA, uma do Cazaquistão e uma japonesa!

19
out
09

Confira os selecionados para a mostra competitiva do FIC Brasília 2009 – Parte 1

Férias marcadas, novembro é o mês que vou me dedicar a ver cinema. Primeiro, o FIC – Festival Internacional de Cinema – e, na sequência, o Festival de Cinema de Brasília. Agora, o problema número 2: com tantos filmes que irão ser exibidos no FIC 2009 – que conta com quase 100 filmes -, fica difícil escolher o que ver. Começo minha seleção pela mostra competitiva que, nas edições anteriores do FIC que acompanhei, não me decepcionou.

Lembrando: O FIC 2009 começa no dia 4 de novembro e vai até o dia 15, com sessões diárias no Cine Academia e Centro Cultural Banco do Brasil. Assim que forem divulgados os horários dos filmes, faço um update!

Este post é dividido em três partes, o restante dos filmes entrará nos próximos dias.

1. “Defamation”, de Yoav Shamir, co-produção Israel/Austrália/EUA/Dinamarca, 91 minutos.

Este filme esteve na première mundial do Festival de Berlim e no BAFICI, Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires. Os outros dois longas do seu diretor, Yoav Shamir, já passaram por Brasília. Em 2004, seu filme de estréia, “Checkpoint”, esteve no “É tudo verdade” e, em 2006, o filme “Cinco Dias” esteve na mostra competitiva no FIC. Em “Defamation“, Yoav volta ao ambiente já retratado em seus outros dois filmes: a luta ideológica e política entre palestinos e israelenses. Com tom satírico, o autor, um judeu de Israel, se pergunta o que é o antisemitismo, tema bastante importante para o seu povo. Shamir vai ao encontro de instituições que tratam de denúncias contra o antisemitismo, conversa com estudiosos sobre o tema e descobre um “turismo do holocausto”.

2. “El nino pez”, de Lucía Puenzo, co-produção Argentina/França/Alemanha, 96 minutos.

Um dos filmes que aguardo com mais curiosidade. As obras de Lucía Puenzo são boas amostras do cinema que está se produzindo na Argentina. Foi dela o prêmio de melhor filme da mostra competitiva do FIC 2007, com o longa “XXY”. El nino pez estreou com destaque no Festival de Berlim. A lenda paraguaia do menino peixe é contada por Ailín à Lala, a filha do dono da casa onde trabalha. As duas dividem um segredo – e um pacto – que é o ponto inicial da trama. Em mais um drama familiar, Lucía avança e trabalha com temas que tangenciavam sua obra anterior, como o amor homossexual entre duas mulheres. Tema que passa próximo também de “O Pântano”, da argentina Lucrécia Martel, no tratamento que oferece ao relacionamento entre Isabel e Momi, respectivamente a empregada e a filha mais nova da dona da casa.

3. “Francia”, de Andrián Caetano, produção Argentina, 77 minutos.

Adrián Caetano esteve no Brasil há pouco tempo pela mostra de cinema argentino “Birra, crise e poesia”. Ele é o diretor do já clássico “Pizza, birra, faso”, de 1998, longa no qual cinco adolescentes perdidos em Buenos Aires planejam um assalto – este filme marca o início do denominado novo cinema argentino. Adrián também foi indicado à Palma de Ouro pelo filme “Crônica de uma fuga”, de 2006. Bom, com essa apresentação, se pode esperar boa coisa do seu filme mais recente. Nele, um retrato de uma família é tecido pelo ponto de vista de uma adolescente. Adrián propõe um discurso ambientado na classe média, tendência argentina que chega também ao cinema brasileiro, como no último de Heitor Dhalia, “À Deriva”.

Defamation, 2009, Yoav Shamir, Isr/Austr/US/Din, Festival de Berlin, 91”

15
out
09

Tributo a La Negrita

Junto a Piazzolla, Borges e Gardel, Mercedes Sosa forma o hall das importantes figuras argentinas. Ela é, sem dúvida, uma das mais expressivas cantoras latino-americanas. “É”, no tempo presente, porque ela se recusou a morrer. Seu último álbum, “Cantora”, foi lançado este ano e vem acompanhado do registro visual das gravações em estúdio. Este documentário de 60 minutos, chamado “Mercedes Sosa – Cantora, un viaje íntimo”, mostra o making of da gravação deste álbum de duetos, depoimentos de Mercedes, nos quais ela retoma parte de sua trajetória, além dos testemunhos dos convidados. Se, por um lado, é visível o respeito que os convidados têm por Mercedes, é também impressionante a admiração que La Negra  dispensa aos cantores com quem divide o microfone. Tanto é que grande parte das músicas escolhidas para o álbum são dos convidados. São eles, entre outros, Caetano Veloso – com quem canta “Coração vagabundo” em português -, Julieta Venegas – artista pop mexicana que por aqui não chegou a fazer o sucesso que alcançou na América Latina -, Charly Garcia – é também um dos mitos argentinos, polêmico cantor, compositor e multi-instrumentista de rock -, Luis Alberto Spinetta – rockeiro argentino de grande sucesso na década de 70, por quem Mercedes dispensa grande empatia -, María Granas – que, segundo Mercedes, tem uma das mais lindas vozes -, e a brasileira Daniela Mercury.  A emoção com que La Negra canta e a crença na mensagem que passa – fique atento ao fim da música que canta com Spinetta – demonstram a devoção com a qual ela – e sua memória – deve ser tratada.

Mercedes representa muito ao patrimônio cultural americano, tanto musical quanto ideologicamente. É a maior voz do folclore latino americano e lidera um público heterogêneo. A música folclórica argentina é bastante difundida no país, inclusive entre os mais jovens. É também uma figura da resistência. Em 1979, em pleno regime ditatorial, ela e o público que assistia a seu show foram presos. Perseguida pelos militares por ser peronista, foi obrigada a se refugiar em Paris, voltando a Argentina somente em 1982.”Estava desesperada para voltar”, diz Mercedes durante o documentário.

“Cantora”, álbum duplo e documentário, foram lançados dois meses antes de sua morte. Com ares de tributo, Mercedes se despede cantando, na última cena do documentário, alguns versos de uma música de Charly Garcia. Bom, o que ela canta – capaz de impressionar até os não facilmente impressionáveis – fica pra quem tiver a oportunidade de ver o filme.

Veja aqui um trecho do documentário. A música é “Barro tal vez”, um dos hinos de Spinetta.

11
out
09

Os melhores filmes são aqueles que nós mesmos inventamos

Pra quem não vai ao cinema hoje e não sabe o que assistir em casa, dou uma dica de filme: “Rebobine, por favor”, de Michel Gondry, que aqui no Brasil passou pelos cinemas em maio. Espero que o texto dê vontade de ver o filme!

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be-kind-rewind

Quando os anos 80 começaram a dar sinais de retorno, primeiro na moda seguido pela sonoridade de novas bandas, muitos devem ter previsto o marco dessa estética também em outros meios. Michel Gondry é o expoente máximo dessa cultura oitentista dentro do cinema. Seu nome é sempre referenciado à produção de vídeo clipes de artistas como Bjork, Beck e White Stripes. Francês, iniciou seus experimentos – pois é assim que trata a imagem, como um papel branco entregue à mão de uma criança – na década de 90. Com o sucesso obtido tanto na publicidade quanto na produção de vídeo clipes, começou a realizar filmes. Toda a sua obra tem uma marca autoral, mesmo quando deixa o roteiro a cargo de Charles Kaufmann. Seu terceiro longa-metragem, “Rebobine, por favor” (“Be kind, rewind”), estreou em maio no Brasil. Aqui em Brasília, esteve em cartaz durante poucas semanas no cinema da Academia de Tênis.

O filme ainda ganhou uma exposição que rodou algumas capitais. Ali foi oferecido um workshop básico, roupas e objetos cênicos para que o público pudesse experimentar seu dia de cineasta, acompanhado de cenários que faziam alusão ao filme. Isso tudo para promover sua mais recente obra, uma comédia na qual Jack Black e Mos Def vivem uma dupla que, após apagar acidentalmente as fitas de uma locadora, passa a recriar os filmes destruídos de forma caseira. Integram a lista alguns clássicos como Os caça-fantasmas, Conduzindo Miss Daisy, Hora do Rush 2, Robocop, 2001 – Uma odisséia no espaço, além de vários outros sucessos. Adivinhar qual é o filme parodiado torna-se um dos momentos mais divertidos do visionado do filme. Também provocam risos os efeitos especiais do filme, principalmente nas cenas que o personagem de Jack Black está magnetizado, prestes a sumir tal qual o material das fitas VHS. Nesta cena, lembrei logo de Marty Mcfly, personagem de Michael J. Fox na trilogia De volta para o futuro, quando ele põe em risco sua própria existência por alterar todo o futuro em uma viagem acidental ao passado.

“É um tipo de utopia. Imaginei como seria se as pessoas fizessem filmes caseiros usando o que estivesse disponível na vizinhança, criando sua própria história e dividindo-a com a comunidade. Os personagens começam fazendo remakes até serem proibidos pelo FBI e pelos estúdios. Então, eles passam a filmar a história da cidade e um filme sobre [o jazzista] Fats Waller [1904-1943], porque acreditam que Waller morava no prédio deles.” (Gondry em entrevista cedida à Folha, 28/01/09)

Com freqüência, Gondry realiza em suas obras a mistura de mídias. Parece estar eternamente – e que esse eternamente não tenha um caráter valorativo – naquele momento de transição do cinema entre a película e o digital. Rever “The Pillow book”, de Peter Greenaway, realizado em 1996, nos dá uma amostra de como se deu a percepção dessa nova mídia. A mistura de texturas analógicas e digitais, o acúmulo de transições e sobreposições faz lembrar a popularização da câmera de filmagem. E o filme aprecia cada pausa estruturada nesses artifícios. É como se o processo de democratização iniciado pela filmadora VHS tenha atingido seu cume com a câmera de celular, transformando cada pessoa em um cineasta em potencial. Pensando nisso, Gondry convida o espectador a fazer seu próprio filme.

O suposto improviso e uso de certos recursos simples geram efeitos interessantes nas obras de Gondry, marcado também pelo uso engenhoso da narrativa. A grande bronca que o espectador tem do filme é o pouco tempo reservado às divertidas paródias, já que deve ceder espaço ao eixo principal da história. Outro ponto é a percepção de que o filme foi realizado nos moldes tradicionais da indústria. A proposta que é realmente radical, de se filmar uma única vez cada plano, fazendo a edição já naquele momento, fica restrito à mera ilustração, como se no cinema não houvesse espaço para esse tipo de experimentação.

Michel Gondry ama a música pop, os brinquedos de papel, desenhos animados, a arte contemporânea, nostalgia, Alain Resnais. Mais parece um adolescente velho, admirador das décadas de 80 e 90. Atitude irreverente que não pode ser confundida com entretenimento barato.

“What interests me is that technology filters down to poor people. If you go to a poor neighborhood, you will see cars from the ’80s. Reviewers have criticized me for showing an all-VHS store, but I think it’s possible that one might exist in a working-class neighborhood. I don’t like the idea that videotapes don’t exist anymore because they’re not being sold by corporations. You shouldn’t destroy your VCR because the quality of DVD is better. I like to look at what’s modern in history. That’s why I picked Fats Waller. His music hasn’t aged. It’s out of fashion, out of time. If you look at things that have dated, they’re trying to be a product of their time without being truly modern. If you look at the ’80s, you can see bands like Duran Duran and think, “Oh, the ’80s were horrible,” but that’s the wrong idea. At the same time, there were creative people like the Talking Heads. Their modernity remains forever.” (Gondry em entrevista ao site americano studiodaily, 22/02/2008)

07
out
09

À Deriva, filme de Heitor Dhalia

Ainda contrariada pela não indicação ao oscar de “À Deriva” – que não chegou a ser inscrito pelos seus produtores para concorrer à vaga -, encontrei esse texto que escrevi na ocasião do lançamento do filme e que publico aqui, à espera de seu próximo filme: um noir com características de road movie chamado “Uma mulher e uma arma”. O longa ainda está em fase de pré-produção e terá como cenários a cidade de Buenos Aires e a Patagônia, na Argentina. Dhalia é um dos fundadores da Cellululoid Dreams Brasil, filial da renomada produtora francesa, empresa que tem como principal objetivo produzir longas que possam atingir o mercado local e internacional.

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aderiva

O terceiro filme de Heitor Dhalia, depois dos exitosos “Nina” e “O cheiro do ralo”, chega aos cinemas em junho. “À Deriva” teve sua estréia no festival de Cannes deste ano, sendo exibido na competição paralela da mostra Um Certain Regard. A escolha deste festival para a primeira exibição do filme não foi feita ao acaso. Além de representar um trampolim para qualquer filme, “A Deriva” leva características que o situam neste ambiente e na trajetória do próprio festival. Dhalia afirma ter nos cineastas franceses grande parte de sua influência: “É uma história e um estilo que tem muito a ver com uma certa tendência do cinema francês, de diretores como (Eric) Rohmer e (François) Truffaut, dos filmes de jovens adolescentes, e também do italiano, sobre férias de verão e família”.

Descrito pelo diretor como um filme pessoal, mas não autobiográfico, tem todo um clima de lembrança, a começar por se situar na década de 80 – parece um velho recordatório de antigas férias de verão. Nos é apresentado o drama de Filipa, uma adolescente de 14 anos que passa as férias com a família no litoral. A menina se depara com suas primeiras descobertas sexuais ao mesmo tempo que presencia a crise no casamento dos pais e descobre o envolvimento do pai com uma amante, pivô de uma iminente separação do casal.

O drama da obra funciona como rito de passagem entre a infância e adolescência da protagonista. O filme aborda questões amargas com suavidade em seu tratamento. Acompanhamos o filme pelo ponto de vista de Filipa. Ela vê a sua família se dissolvendo e, junto ao espectador, tenta entender o que está ocorrendo com os pais.

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Foto: Flickr de Alexandre Ermel

05
out
09

MTV exibe faixa de documentários musicais

Há pouco tempo voltei a acompanhar a programação da MTV Brasil. A emissora já havia me surpreendido com a simpática série “Descolados”, que acaba essa semana. Uma outra programação muito boa é o Doc MTV, faixa de documentários musicais exibida aos sábados à noite com reprise no domingo – os horários variam, é bom conferir pelo site da emissora. Neste fim de semana foi exibido “Brega S.A.”, documentário dirigido por Gustavo Godinho e Vladimir Cunha sobre a cena tecnobrega de Belém do Pará, movimento de grande apelo popular que agrega diversos ritmos, entre eles o já conhecido Brega pop – ou Calypso.

Boa iniciativa, já que muitos dos documentários são inacessíveis ao grande público – com destaque para “Ruído das Minas”, documentário sobre a cena heavy metal de Belo Horizonte realizado sem muitas pretensões como trabalho de conclusão de curso de dois alunos da UFMG. Não gosto muito dessa alcunha, mas a escolha dos filmes foi bastante democrática. Sábado que vem vou tirar minha camisa de flanela quadriculada do armário e acompanhar o “1991: The year that punk broke”, documentário feito em VHS que acompanha o Nirvana e o Sonic Youth em uma turnê pela Europa. Vale lembrar que o Sonic Youth está confirmado pro Planeta Terra. No fim do mês, será exibido “Mundo tributo”, documentário argentino sobre bandas covers que presta homenagem aos artistas anônimos que se transformam em seus ídolos. Nada mal assistir esses filmes e aproveitar o bom humor do programador da MTV.

Aqui, a programação das próximas semanas, tirado do site da MTV:

1991 – The year that punk broke:

O documentário acompanha o Sonic Youth e o Nirvana durante uma turnê pela Europa no final de 91, além de participações de Dinosaur Jr, Babes in Toyland, Gumball, Ramones, Mark Arm, Dan Peters e Matt Lukin, do Mudhoney, além de Courtney Love, e Joe Cole.
sábado, 10/10, 23h30
reprise: domingo, 11/10, 18h30

Queen – Days of our lives:

A história de uma das bandas mais importantes da história é passada a limpo nesse documentário. Apresentado por Axl Rose,  fã assumido da banda, o filme traz os integrantes do Queen em apresentações histórias, entrevistas marcantes e depoimentos bombásticos.
sábado, 17/10, 00h00
reprise: domingo, 18/10, 19h15

Mundo tributo:

Documentário argentino sobre as melhores bandas covers do mundo.
sábado, 24/10, 23h30
reprise: domingo, 25/10, 19h30

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Outras coisas:

Festival internacional de documentário musical, que irá ocorrer em março de 2010 em SP e RJ.




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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