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out
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Os melhores filmes são aqueles que nós mesmos inventamos

Pra quem não vai ao cinema hoje e não sabe o que assistir em casa, dou uma dica de filme: “Rebobine, por favor”, de Michel Gondry, que aqui no Brasil passou pelos cinemas em maio. Espero que o texto dê vontade de ver o filme!

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be-kind-rewind

Quando os anos 80 começaram a dar sinais de retorno, primeiro na moda seguido pela sonoridade de novas bandas, muitos devem ter previsto o marco dessa estética também em outros meios. Michel Gondry é o expoente máximo dessa cultura oitentista dentro do cinema. Seu nome é sempre referenciado à produção de vídeo clipes de artistas como Bjork, Beck e White Stripes. Francês, iniciou seus experimentos – pois é assim que trata a imagem, como um papel branco entregue à mão de uma criança – na década de 90. Com o sucesso obtido tanto na publicidade quanto na produção de vídeo clipes, começou a realizar filmes. Toda a sua obra tem uma marca autoral, mesmo quando deixa o roteiro a cargo de Charles Kaufmann. Seu terceiro longa-metragem, “Rebobine, por favor” (“Be kind, rewind”), estreou em maio no Brasil. Aqui em Brasília, esteve em cartaz durante poucas semanas no cinema da Academia de Tênis.

O filme ainda ganhou uma exposição que rodou algumas capitais. Ali foi oferecido um workshop básico, roupas e objetos cênicos para que o público pudesse experimentar seu dia de cineasta, acompanhado de cenários que faziam alusão ao filme. Isso tudo para promover sua mais recente obra, uma comédia na qual Jack Black e Mos Def vivem uma dupla que, após apagar acidentalmente as fitas de uma locadora, passa a recriar os filmes destruídos de forma caseira. Integram a lista alguns clássicos como Os caça-fantasmas, Conduzindo Miss Daisy, Hora do Rush 2, Robocop, 2001 – Uma odisséia no espaço, além de vários outros sucessos. Adivinhar qual é o filme parodiado torna-se um dos momentos mais divertidos do visionado do filme. Também provocam risos os efeitos especiais do filme, principalmente nas cenas que o personagem de Jack Black está magnetizado, prestes a sumir tal qual o material das fitas VHS. Nesta cena, lembrei logo de Marty Mcfly, personagem de Michael J. Fox na trilogia De volta para o futuro, quando ele põe em risco sua própria existência por alterar todo o futuro em uma viagem acidental ao passado.

“É um tipo de utopia. Imaginei como seria se as pessoas fizessem filmes caseiros usando o que estivesse disponível na vizinhança, criando sua própria história e dividindo-a com a comunidade. Os personagens começam fazendo remakes até serem proibidos pelo FBI e pelos estúdios. Então, eles passam a filmar a história da cidade e um filme sobre [o jazzista] Fats Waller [1904-1943], porque acreditam que Waller morava no prédio deles.” (Gondry em entrevista cedida à Folha, 28/01/09)

Com freqüência, Gondry realiza em suas obras a mistura de mídias. Parece estar eternamente – e que esse eternamente não tenha um caráter valorativo – naquele momento de transição do cinema entre a película e o digital. Rever “The Pillow book”, de Peter Greenaway, realizado em 1996, nos dá uma amostra de como se deu a percepção dessa nova mídia. A mistura de texturas analógicas e digitais, o acúmulo de transições e sobreposições faz lembrar a popularização da câmera de filmagem. E o filme aprecia cada pausa estruturada nesses artifícios. É como se o processo de democratização iniciado pela filmadora VHS tenha atingido seu cume com a câmera de celular, transformando cada pessoa em um cineasta em potencial. Pensando nisso, Gondry convida o espectador a fazer seu próprio filme.

O suposto improviso e uso de certos recursos simples geram efeitos interessantes nas obras de Gondry, marcado também pelo uso engenhoso da narrativa. A grande bronca que o espectador tem do filme é o pouco tempo reservado às divertidas paródias, já que deve ceder espaço ao eixo principal da história. Outro ponto é a percepção de que o filme foi realizado nos moldes tradicionais da indústria. A proposta que é realmente radical, de se filmar uma única vez cada plano, fazendo a edição já naquele momento, fica restrito à mera ilustração, como se no cinema não houvesse espaço para esse tipo de experimentação.

Michel Gondry ama a música pop, os brinquedos de papel, desenhos animados, a arte contemporânea, nostalgia, Alain Resnais. Mais parece um adolescente velho, admirador das décadas de 80 e 90. Atitude irreverente que não pode ser confundida com entretenimento barato.

“What interests me is that technology filters down to poor people. If you go to a poor neighborhood, you will see cars from the ’80s. Reviewers have criticized me for showing an all-VHS store, but I think it’s possible that one might exist in a working-class neighborhood. I don’t like the idea that videotapes don’t exist anymore because they’re not being sold by corporations. You shouldn’t destroy your VCR because the quality of DVD is better. I like to look at what’s modern in history. That’s why I picked Fats Waller. His music hasn’t aged. It’s out of fashion, out of time. If you look at things that have dated, they’re trying to be a product of their time without being truly modern. If you look at the ’80s, you can see bands like Duran Duran and think, “Oh, the ’80s were horrible,” but that’s the wrong idea. At the same time, there were creative people like the Talking Heads. Their modernity remains forever.” (Gondry em entrevista ao site americano studiodaily, 22/02/2008)

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Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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