Arquivo para novembro \18\UTC 2009

18
nov
09

“Lula, o filho do Brasil”, de Fábio Barreto, abre o 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

O filme mais caro da história do cinema brasileiro foi exibido ontem na abertura do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em sessão restrita a convidados e com casa cheia – ou seria abarrotada – foi feito o pré-lançamento de “Lula, o filho do Brasil”, o mais recente filme de Fábio Barreto que só chegará aos cinemas em janeiro de 2010.

Em um sertão onírico, pastel e límpido, surge Luis Inácio. A primeira cena do filme, como era de se esperar, mostra seu nascimento. A partir daí se limita a relação dos dois personagens centrais do filme: a mãe, figura forte, quase onipotente, e o filho, personagem que está sempre – e sempre se refere ao tempo inteiro – enquadrada pela câmera. O longa não abre espaço para tramas paralelas e persegue obsessivamente seu protagonista, numa obviedade quase desnecessária. Por certos momentos, até parece que Lula é filho único, pois as cenas de família são centradas na sua relação com a mãe e, os irmãos, mesmo quando presentes nas cenas, servem só como elementos de cenário. Se houve a necessidade de começar sua história com o nascimento e início da infância no sertão pernambucano, que isso fosse feito com equidade. São cenas lindas, mas soam bastante falsas. Tom que também está presente na chegada da família a São Paulo. O cais de Santos nunca pareceu tão claro. O indício da pobreza está no bege. É como se o público devesse sentir pena, mas não asco.

Outro ponto que deve ser discutido é a necessidade de se abordar grande parte dos eventos importantes da vida de Lula. Essa obrigatoriedade faz com que o filme não dê tempo às ações. Até o início de Lula no movimento sindical, o filme é bastante corrido. Este é o primeiro conflito compreensível do filme e, diferente do que havíamos acompanhado até aqui, está bem construído. A aproximação é vagarosa e os motivos da personagem finalmente abrangem o público. É aí que o filme realmente começa. A interpretação de Rui Ricardo Dias é espetacular e com ele o filme ganha humanidade. No entanto, outros eventos da vida de Lula continuam a ocorrer com rapidez, sem a dramaticidade exigida – como, por exemplo, a morte da primeira esposa e o acidente que lhe amputou o dedo -, estando ali para cumprir o protocolo de abordar os grandes feitos de sua vida. Faltou agilidade no uso de elementos básicos do cinema. Todas as críticas que normalmente são direcionadas a filmes adaptados de obras literárias caberiam neste filme. Ele é feito em tópicos.  E a mãe, mesmo sem utilidade para a narrativa, sempre volta para lembrar seu filho de sua origem simples e de seu caráter especial. É uma obra conservadora, mesmo se disfarçando de despojada.

O filme, ao fim, aponta para vários lados, acertando alguns. Ao fim da sessão, muitos compararam “Lula, o filho do Brasil” com “Dois filhos de Francisco”. Acho o filme de Breno Silveira muito superior, com roteiro e fotografia impecáveis. A saga de Barreto – o filme tem pouco mais de duas horas – não me emocionou. Pode ser, sim, uma obra de arte – assim como exclamou Barreto no palco – além de um filme político. Mas, se é obra de arte, é sobre a relação de um filho com sua mãe e sobre um sertanejo que conseguiu se destacar na vida. A figura histórica, verdadeiro cerne da questão, foi preterida.

*Fotos retiradas do flickr do filme

_______________________________________________________________________________________________

Confira a programação completa do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

O filme não será reprisado no festival.

Anúncios
16
nov
09

“Prince of Broadway”, de Sean Baker, foi o grande vencedor da mostra competitiva do XI FIC Brasília

Este é mais um dos ótimos – e imperdíveis – filmes que passaram pelo XI FIC Brasília. Só o assisti no último dia e por isso ainda não havia postado comentários sobre ele aqui no blog. Este prêmio é, então, uma ótima desculpa para tecer minhas impressões sobre este excelente filme.

PrinceOfBway-lrg

Em “Prince of Broadway”, a câmera se denuncia a cada plano. Em cenas pretensamente cotidianas e realistas, ela se movimenta freneticamente. Se aproxima e se distancia dos ambientes e pessoas, agregando à matéria do filme a crise vivida pelos personagens. Assim como em “Take out”, filme de estréia de Sean Baker em co-direção com Shih-Ching Tsou, o tema transversal da obra é a imigração e a ilegalidade. No primeiro filme, são imigrantes chineses com problemas quanto a suas moradias. Em “Prince of Broadway”, é Lucky, um imigrante senegalês ilegal, e Levon, um libanês que conseguiu o seu Green Card ao se casar com uma americana. O conflito é gerado pela chegada inesperada de uma criança, um garoto de menos de dois anos que fará Lucky, forçadamente, se assumir pai.

Lucky trabalha como “traficante de produtos ilegais” nas ruas de Nova Iorque. Ele capta clientes e os leva até a loja de Levon, seu patrão. Na parte dos fundos da loja, são vendidas mercadorias falsificadas de grandes marcas. Tem de tudo: Gucci, Nike, Prada, Lacoste. A vida de Lucky é bagunçada quando uma de suas ex-namoradas deixa com ele um garoto dizendo ser seu filho. Mesmo contestando a situação, Lucky não tem o que fazer. Rapidamente sua ex-namorada foge e a criança, a qual ele não sabe nem o nome, passa a depender dele. Paralelamente, acompanhamos o drama da crise do casamento de Levon. No entanto, por este núcleo ser menos atraente que o principal, acaba ficando bem à margem durante a trajetória do filme. Escolha acertada, pois a trama principal é a que rende mais discussão.

O uso de atores não profissionais – o ator que interpreta Lucky, Prince Adu, foi encontrado por Baker durante uma visita ao bairro que serve de cenário ao filme – e a paisagem urbana legítima levam o filme ao contexto realista-social. A filmagem em digital, que propicia também uma equipe reduzida e, com isso, mais naturalidade na aproximação aos cenários reais, traz uma atmosfera documental – mas isso sem que, em momento algum, possa confundir o espectador se o caráter das imagens é ficcional ou não. O tema do filme, ao fim, acaba sendo menos a discussão sobre a imigração que as relações familiares, as relações afetuosas e de amizade. Com o tempo, o problema de Lucky com a imigração abre espaço a um drama bem maior: a adaptação da convivência com seu suposto filho e a sua transformação afetiva, temas de grande caráter universal.

___________________________________________________________________________________________________

Os ganhadores do XI FIC Brasília:

Mostra competitiva:

Melhor filme: “Prince of Broadway”, de Sean Baker

Menção honrosa concedida pelo júri: “Tulpan”, de Sergei Dvortsevov

Menção honrosa pela atuação: Elsa Amiel, por “Nulle part, terre promisse”, de Emmanuel Finkiel

Prêmio TV Brasil:

Melhor filme: “Insolação”, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas

Menção honrosa concedida pelo júri: “Os famosos e os duendes da morte”, de Esmir Filho

Menção honrosa para direção: Lucía Puenzo, por “El niño pez”

Menção honrosa para melhor ator: Marcio Vito, por “No meu lugar”, de Eduardo Valente

Prêmio de excelência técnica: Mauro Pinheiro Júnior, pela fotografia nos filmes “Insolação”, “No meu lugar” e “Os famosos e os duendes da morte”

16
nov
09

Museu da República abriga mostra retrospectiva do cineasta francês Claude Lelouch

Lelouch poucas vezes é citado quando se pensa em cinema francês. Junto aos cultuados Godard, Truffaut e Resnais, esteve na Cahiers du Cinéma, fazendo crítica de cinema e rodando filmes. No entanto, é vítima de certo preconceito dos seguidores mais fervorosos deste grupo. Isso porque seus filmes foram considerados comerciais. Dono de uma enorme filmografia, ganhou por “Um homem, uma mulher”, de 1966, a Palma de Ouro, o Oscar de melhor filme estrangeiro e o de roteiro original. Este é seu filme mais cultuado e estará presente na mostra que terá lugar no Museu da República a partir do dia 19 deste mês. Este filme deu margem à produção de “Um homem, uma mulher – 20 anos depois”, seqüência lançada em 1986 que revisita os personagens da obra que lhe deu início. Com trilha sonora composta por músicas de Vinícius de Moraes e Baden Powell, “Um homem, uma mulher”, assim como grande parte de sua obra, tem como mote o sentimento humano em filmes de intenso cuidado plástico.

Um homem, uma mulher 2

"Um homem, uma mulher"

Mulheres e homens, modo de usar

"Mulheres e homens: modo de usar"

Os filmes de Lelouch têm traços inconfundíveis. É um cinema sentimentalista – algumas vezes classificado como cafona – que lida com grandes temas. Senti falta do filme “Retratos da vida”, um dos grandes de sua carreira que, apesar de ter sido lançado em DVD – diferente de grande parte dos filmes que compõem a mostra em sua homenagem – é de difícil acesso, estando esgotado na maioria das lojas do gênero. Este filme lida com cenas de canto e dança. Aliás, a música, assim como os relacionamentos amorosos, está sempre presente em suas obras, gerando impacto e com grande participação na narrativa. Lelouch é uma das afirmações do cinema de autor.

A mostra percorre a obra de Lelouch em filmes de diversas décadas, estando o mais recente, “A coragem de amar”, em 2005. O cineasta ainda está na ativa e prepara o lançamento, para 2010, de seu mais novo filme, “Ces amours là”, nova parceria com Anouk Aimée, atriz que esteve no elenco de “Um homem, uma mulher”.

Leia: Texto de André Setaro, “Em defesa de Claude Lelouch”

__________________________________________________________________________________________________

Confira a programação da mostra “O cinema de Claude Lelouch”. Todos os filmes têm legenda em português e a entrada é gratuita:

19/11, quinta-feira às 19h: “A dama e o gângster” (“La bonne annee”, 1973, 90 minutos)

Sinopse: “Um gângster arquiteta e prepara, com seu cúmplice, o primeiro assalto psicológico a mão-armada da História do Crime. Bem próximo da famosa Joalheira Van Cleef & Arpels de Paris, o dono de um antiquário começa a observar o movimento, a fim de armar uma trapaça.”

20/11, sexta-feira às 19h: “Itinerário de um aventureiro” (“Itinéraire d’un enfant gâté”, 1988, 125 minutos)

Sinopse: “Ex-garoto abandonado que cresceu num circo, Sam Lion é obrigado a repensar sua vida depois de um acidente no trapézio. Torna-se um dirigente empresarial. Mas várias décadas se passam e ele, agora com mais de cinqüenta anos, está convencido de que os mais belos anos de sua vida são aqueles ainda não vividos. Ele quer ir além do que já viveu. Decide abandonar tudo, suas responsabilidades no escritório, seu segundo casamento, seus filhos Jean-Philippe e Victoria, e desaparecer a bordo de seu barco. Viaja para a África, onde busca refúgio próximo de seus conhecidos, os leões. Mas o passado irá encontrá-lo nas longínquas savanas na figura de Albert Duvivier, um de seus ex-patrões.”

21/11, sábado às 19h: “Um homem, uma mulher” (“Un homme et une femme”, 1966, 102 minutos)

Sinopse: “Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier encontram-se acidentalmente durante visita a seus respectivos filhos num colégio interno a cada final de semana. Certa vez, Anne perde o trem e ele oferece a ela uma carona de volta a Paris.”

22/11, domingo às 18h: “Mulheres e homens: modo de usar” (“Hommes, femmes, mode d’emploi”, 1996, 118 minutos)

Sinopse: “Brilhante advogado, Benoit Blanc leva uma vida trepidante entre seus casos, que conduz com a energia dos conquistadores. Uma hiper-atividade que se repercute na saúde: ele sofre com complicações gástricas e tem que consultar um especialista, o professor Lerner. Na sala de espera do médico, Benoit reencontra o Inspetor Fabio Lini, antigo ator que entrou para a polícia depois de abandonar os palcos. Angustiado e receoso, Lini é imediatamente seduzido pelo temperamento do advogado.”

24/11, terça-feira às 19h: “Tem dias de lua cheia” (“Il y a des jours… Et des lunes”, 1990, 117 minutos)

Sinopse: “Corre o mês de março, horário de verão. Uma hora a menos. Além do mais, há a famosa lua cheia. Os comportamentos se exacerbam e as tensões e o mau humor se espalham como epidemia. Tudo pode mudar de uma hora para outra na vida desses personagens: o caminhoneiro que nunca chega ao fim de suas rotas, o médico que ama em excesso seus pacientes, uma mulher solitária e outra ingênua, o padre que crê no amor, o cantor abandonado, um lunático, um aposentado que sabe tudo e outro nostálgico, a jovem que sempre terá 19 anos, os noivos de uma noite apenas e tantos outros tipos.”

25/11, quarta-feira às 19h: “A coragem de amar” (“Le courage d’aimer”, 2005, 103 minutos)

Sinopse: “Segundo filme da série que Lelouch batiza de Le Genre Humain (o gênero humano), mostra várias histórias, nas quais pessoas comuns envolvem-se em situações extraordinárias, como o caso da esposa de um policial moribundo que decide abandoná-lo; um sem-teto que se diz Deus; ou uma dupla de cantores de rua formada por um italiano cinquentão e uma pós-adolescente.”

26/11, quinta-feira às 19h: “O bom e os maus” (“Le bon et les méchants”, 1976, 120 minutos)

Sinopse: ” A história de Jacques, um jovem mecânico que sonha em se tornar um boxeador profissional, e seu amigo de coração, o judeu Simon. Na década de 1930, os dois homens roubam um carro com um motor poderoso que pode superar qualquer outro veículo de transporte rodoviário e embarcam numa vida de crimes. Quando o temido inspetor de polícia Bruno está prestes a levar os dois homens à justiça, estoura a Segunda Guerra Mundial. Jacques e Simon acabam, por acaso, apoiando a Resistência Francesa. Bruno conscientemente decide colaborar com a polícia alemã. Seus caminhos acabam se atravessando.”

Trailer aqui

27/11, sexta-feira às 19h: “Tudo isso pra isso?” (“Tout ça… pour ça!”, 1993, 120 minutos)

Sinopse: “Como num grande mosaico humano, Lelouch apresenta personagens e enredos paralelos para falar de amor e solidão. Segundo estatística, é no período das férias de verão que acontece o maior número de pedidos de divórcio. É também o momento em que há mais tentativas de suicídio. Num hospital, três sobreviventes se conhecem e conversam. Cria-se uma grande amizade entre eles que pensam em repetir as tentativas juntos. É uma história sobre a distração que resta, no final do século, a homens e mulheres: como se encontrar e se separar sem grande tormentas. Participação no elenco da atriz brasileira radicada na França Cristiana Reali. O ator Fabrice Luchini ganhou o prêmio César de ator coadjuvante.”

28/11, sábado às 19h: “Atenção bandidos!” (“Attention Bandits”, 1987, 111 minutos)

Sinopse: “Simon Verini, um vigarista notório, decide voltar à ativa depois que Mozart, o jovem líder de um bando de ladrões de jóias, coloca um negócio em seu caminho. Embora Verini esteja fora da Holanda, é chamado a encontrar um comprador para as jóias roubadas de Mozart. Para convencê-lo, sua mulher é seqüestrada e mantida como refém. Embora Verini aceite a pressão e receba as jóias das mãos do seqüestrador, sua esposa é morta diante de seus olhos. Pouco depois, ele é preso pelo roubo das jóias e enviado para a prisão por dez anos. Antes de ir, tem tempo apenas para encontrar um lugar para sua filha, Marie-Sophie, em uma escola suíça de elite. Ao sair, dez anos depois, Verini recolhe sua filha, agora uma mulher adulta jovem, e persegue o assassino de sua esposa.”

Trailer aqui

29/11, domingo às 18h: “Sorte ou coincidência” (“Hasards ou coïncidences”, 1998, 120 minutos)

Sinopse: “Myriam, uma bailarina divorciada e com um filho, Serge, de oito anos, apaixona-se por Pierre, um comerciante de arte e falsificador. Depois de um curto período de felicidade, que Serge filma com a sua câmera de vídeo, Pierre leva mãe e filho numa longa viagem, que é interrompida de forma trágica. Mas o que poderia gerar apenas dor e sofrimento apresenta também novas possibilidades de vida para Myriam.”

_________________________________________________________________________________________________

Serviço:

Curadoria: Sergio Moriconi

Auditório 2 do Museu Nacional da República

19 a 29 de novembro de 2009

Informações: (61) 3443-8891

Crédito das fotos: divulgação 13 films

15
nov
09

Três em um: Tokyo!, de Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong

Seguindo a idéia de se fazer filmes sobre as grandes cidades do mundo, é lançado agora Tokyo!, longa metragem composto de três médias dirigidos pelos franceses Michel Gondry e Leos Carax e pelo coreano Joon-ho Bong.

tokyo 1

Interior Design, de Michel Gondry

tokyo 2

Merde, de Leos Carax

O seguimento de Gondry é o primeiro. Interior Design conta a história de dois namorados que se mudam para Tóquio e se hospedam na casa de uma amiga. Enquanto ele está empolgado pela exibição de um filme que fez e consegue um emprego, ela não consegue fazer nada, gostar de nada. Vemos na tela o drama de uma pessoa que se sente vazia e não se encaixa no mundo. O fim é surpreende mais pela solução visual que pelo roteiro em si. A resolução do conflito é fácil, mas fica maquiada pela modernidade da linguagem do videoclipe que Gondry maneja tão bem. Mesmo assim a maquiagem é bem feita e Interior Design consegue ser um bom filme.

tokyo 3

Shaking Tokyo, de Joon-ho Bong

Leos Carax dirige Merde. Merde é um homem meio monstro que sai pelas ruas de Tóquio aterrorizando as pessoas. O filme começa bem, mas aos poucos vai se estendendo em uma longa cena de interrogatório e julgamento que é enfadonha e de difícil compreensão. Algumas frases de impacto faladas por Merde nesse momento não fazem muito sentido. O filme perde o ritmo de ação e comédia do início e torna um filme arrastado. Com certeza o seguimento menos atrativo dos três.

No entanto, o filme termina com Shaking Tokyo, Joon-ho Bong, o melhor dos três médias. O filme é a história de um homem que se isola e não faz contato com ninguém há 10 anos. Um dos principais motivos para que ele se isole é não suportar o toque das outras pessoas. Mas o que acontece quando tocamos alguém? Joon-ho Bong faz do físico a expressão dos sentimentos humanos. A luz que nos cega momentaneamente, abalos que nos desperta medo, toques. Todo que parece exterior, na verdade, é interno.

Tokyo! é um bom filme, mas talvez a idéia de homenagear as grandes metrópoles deva mudar. Será que, ao invés de várias visões irregulares, uma boa visão de uma única pessoa não seria melhor? Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, é um bom exemplo disso.

____________________________________________________________________________________________

Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Tokyo!”, de Michel Gondry, Leos Carax e Joon- hon Bong, 112 minutos

Sessões: Dia 15 de novembro às 17h

13
nov
09

Um pouco de autopromoção. Mas… Porque não? “Boca a boca”, de Márcio Werneck

bocaA denúncia social é uma das vertentes mais fortes do documentário. Em “Boca a boca”, documentário brasileiro idealizado pela  ONG Turma do Bem, é realizado um discurso sobre a saúde bucal do país. A origem da idéia pode gerar certo preconceito no público de cinema mais ativo: seu idealizador é o “dentista dos famosos” Fábio Bibancos e, diga-se de passagem, um documentário sobre saúde bucal feito pr um dentista não aparentar ser muito atrativo. Então, o que traz um documentário neste formato para um festival de cinema? Eu diria que é porque o filme é muito bem construído e não tem a cara de filme institucional, tornando-se atrativo, sim, a quem gosta de cinema. Além do mais, trata de um tema que é de importância de todos e poucas vezes foi colocado em pauta. A ilustração do “país de desdentados” é feita através de depoimentos de crianças e adultos que são afetadas pelo problema. Pessoas envergonhadas, humilhadas, de baixa auto-estima, crianças que sofrem bullying por sua aparência. O filme clama por uma ação conjunta, mostrando a dificuldade em se conseguir apoiadores para o projeto e a “vista grossa” que é feita pelo governo.

É bem verdade que há interferências bastante desnecessárias, como por exemplo, os da atriz Lu Grimaldi. Ela quebra o ritmo do discurso ao aparecer – em cenas ficcionais – olhando em um vídeo-assist os depoimentos de algumas crianças e, no único momento em que fala – em cenas documentais -, recebe um corte brusco de edição. Esse cacuete de alguns documentários que se obrigam a inserir ficção num filme que anda muito bem somente como documentário afetou o ritmo de “Boca a boca”. Mas o resultado final ainda é o relato emocionado de um grave problema social. E fica na memória a expressão da garota que sorri pro espelho depois de conseguir consertar seus dentes. A mesma que, no início do filme, tapava a boca com as mãos, envergonhada.

____________________________________________________________________________________________________

Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Boca a boca”, de Márcio Werneck, 55 minutos

Sessões: dia 14 de novembro às 21:20h e 15 de novembro às 17:50h com a presença do diretor e da roteirista

13
nov
09

“Tyson”, de James Toback: falatório incessante de um personagem que clama por redenção

tyson_movie“Tyson” é um filme extremamente verborrágico. Claro, grande parte dos documentários dedicam longo tempo ao falatório dos entrevistados. O que este filme tem de específico é extravasar esse conteúdo, num retrato obsessivo de um personagem que clama por redenção. Fui assisti-lo já sabendo que só iria encontrar relatos de Mike Tyson e algumas poucas imagens de arquivo. Encontrei a ilustração de várias conversas ao mesmo tempo, num efeito que dividia a tela, além da sobreposição de vozes, seqüelas do fluxo de consciência que caracteriza a passagem dos temas e do personagem que desata em discursos às vezes confusos.

Não consegui sentir simpatia por Tyson. Seu relato é monocorde, o mesmo tom com que fala de seu início no boxe, de suas vitórias, de sua família, usa para falar da sua acusação de estupro, da mordida em Holyfield, do problema com consumo de drogas, de sexo e gonorréia. Só interrompe este tom para falar de seu professor Cus, homem que teve grande importância em sua trajetória e a quem sua morte é o motivo encontrado por Tyson para justificar grandes erros de sua vida. Só falando dele Tyson consegue chorar. E só Cus consegue calar Tyson e é a única segunda voz que se escuta durante a uma hora e meia de filme. O documentário serve, talvez, aos psicólogos que queiram observar o transtorno de bipolaridade ou a algum aficionado pelo ex-boxeador. Sem ter afinidade com o personagem ou seu problema, assistir ao filme pode ser uma tortura.

________________________________________________________________________________________________

Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Tyson”, de James Toback, 90 minutos

Sessões: Dia 13 de novembro às 18:10h, dia 14 de novembro às 17:50h e dia 15 de novembro às 17h

13
nov
09

“Tulpan”, de Sergei Dvortsevoy, é um dos melhores filmes do XI FIC Brasília

Não deixe esse filme passar. Ainda mais porque, ao que parece, ele não será distribuído. Reitero o que tinha falado em outro post: este é um filme que foge de definições simplistas. Não é um romance, não é uma comédia de costumes, não é um documentário. É, na verdade, tudo isso junto, realizado de maneira bastante fluida. Mesmo que o drama de Asa, o protagonista, não te afete, é praticamente impossível que este filme não te toque de alguma maneira. Ele é todo uma seqüência de personagens interessantes e complexos que, mesmo quando ausentes, deixam na sua falta uma marca forte. Feito pelo talentoso diretor cazaque Sergei Dvortsevoy, é uma das grandes unanimidades daqueles que o assistiram e merecedor de todos os prêmios que ganhou.

Asa retorna ao bando nômade onde vive sua irmã, em meio à estepe, depois de servir ao exército. Seu desejo é se tornar pastor, mas a regra é que para ganhar seu próprio rebanho, ele deve se casar. A única mulher solteira que conhece é Tulpan e será uma tarefa árdua conquistá-la. Nosso protagonista é um pouco desajeitado, não tem muito talento para pastor, tem orelhas de abano e é bastante inseguro e sensível. Este é o mote inicial do filme, que se desenvolve abrindo para diversos outros dramas. As ovelhas grávidas – cenas de forte caráter simbólico -, a menina que é impedida de cantar – grande personagem que protagoniza cenas muito bonitas – e até um camelo que segue, por milhares de quilômetros, outro camelo doente que é levado pelo veterinário. Faz grande uso do plano-seqüência em cenas de naturalismo e poesia. É um grande filme sobre temas universais.

Tempestades de areia, crianças travessas, cachorros, jumentos e música pop norte-americana completam este filme cômico-contemplativo que, talvez, possa ser definido como uma obra sobre homens e animais.

Layout 1_____________________________________________________________________________________________________

Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Tulpan”, de Sergei Dvortsevoy, 100 minutos

Sessões: dia 13 de novembro às 19:10h e dia 14 de novembro às 19:40h

[Update, 16/11: “Tulpan” foi um dos grandes vencedores do XI FIC! Prêmio bastante merecido. Para quem não assistiu, por causa da premiação, o filme certamente entrará em cartaz nos cinemas da Academia de Tênis José Farani.]




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

Categorias

no twitter: