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“Maradona by Kusturica”: discurso político e afetivo de Kusturica sobre um de seus personagens preferidos

Entre 2005 e 2007, o sérvio Emir Kusturica fez na Argentina um documentário sobre um dos ícones máximos daquele país. Seu cinema, sempre kitsch, cômico, musical e exótico, agrega um personagem gerador de muita polêmica. “Se não fosse jogador, seria um revolucionário”, diz Kusturica sobre Maradona. Diz também que Maradona poderia ser um dos personagens de seu filme, citando “Você se lembra de Dolly Bell?”. Cobrindo a narração de Diego, que fala sobre sua overdose, de como ele achava que iria morrer e sua vista se llenava de sangre, em imagem é apresentada a cena de “Gato negro, gato branco” onde o avô do noivo, no porão da casa, desperta causando espanto depois de todos pensarem que ele estava morto. Diz também que se Andy Warhol estivesse vivo, colocaria Maradona junto a Elvis e Marilyn. Assim, cheio de analogias, Kusturica tece um retrato de um personagem não é capaz de ser definido com poucas palavras.

Maradona aproveita o espaço concedido a ele para esbravejar contra o imperialismo, contra os EUA, contra a Inglaterra, contra os napolitanos, contra João Havelange e contra muitos outros. Enfim, nada diferente daquilo que Maradona costuma dizer na mídia. E Kusturica se põe como o segundo personagem do filme, o provocador. Como autor do filme, se apossa do discurso de seu personagem. Ao som de Sex Pistols, é mostrada uma animação – um pouco tosca e cansativa – onde Maradona dribla Bush e a Rainha da Inglaterra. Depois, acompanhamos um encontro entre Maradona e Fidel, um discurso de Chavez acompanhado de Evo e a tatuagem de Che, em sua pose mais famosa, no braço do ex-futebolista. A visão política de seu personagem toma grande parte do tempo do filme e é, talvez, a menos interessante. Pelo menos pra gente, povo latino-americano, que acompanha esse discurso de perto. Aqui, em substituição ao cenário exótico dos Bálcãs, típico do cinema de Kusturica, está Buenos Aires, San Telmo e a Bombonera. Isso, como não poderia deixar de ser, ao som de cumbia, rock e batucada. Tudo junto e ao mesmo tempo.

O filme faz alguns intervalos bastante interessantes. Os delírios da “igreja maradonística” dizem mais do personagem – que se veste como a grande personalidade que todos lhe dizem ser – que as cenas de cunho político. Assim também dizem bastante as cenas em que Maradona fala de sua família e de seu vício pela cocaína, registros de um momento de sua vida em que estava em queda. Kusturica traça um retrato obsessivo sobre seu personagem, apossando-se de seu discurso de uma forma tendenciosa. Eu diria que Maradona poderia ser um personagem melodramático mexicano ou colombiano, exagerado, às vezes patético, mas, por ser isso tudo, carismático e afetivo.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de tênis José Farani

“Maradona by Kusturica”, de Emir Kusturica, 90 minutos

Sessões: 8 de novembro às 17:30h, 12 de novembro às 19h e 14 de novembro às 19:30h

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Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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