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nov
09

Amargura, solidão e dolicidade em dois filmes latinos: “El último verano de la Boyita” e “Parque Vía”

As melhores experiências que tive, neste festival, foram com filmes latinos. Já falei bastante da Argentina neste blog, até cheguei a pensar que era uma obsessão minha. Ontem, depois de algumas escolhas erradas, assisti “El último verano de la Boyita”, de Julia Solomonoff, produção argentina, e, no fim da noite, “Parque Vía”, de Enrique Rivero, produção mexicana. Os dois, com o cinema quase vazio. Uma pena, pois estes dois filmes – sei que pode parecer exagerado e juro que procurei outra maneira de dizer isso – me lembraram porque eu escolhi o cinema como profissão. Perdidos entre tantos filmes que ganharam Cannes, estiveram em Veneza, que são de diretores renomados e contaram com grandes orçamentos, estão estes dois filmes de sutileza dramática, narrativa sóbria e intensidade sentimental. Não é simples defini-los. Basta dizer que são feitos para demonstrar qual a diferença entre o bom e o mau uso do cinema. Porque cinema se faz com bons personagens, rigor narrativo e apuro estético, não importa a história que se deseja contar. Bom, depois desse desabafo, vamos aos filmes:

Boyita

“El último verano de La Boyita”, de Julia Solomonoff – pupila de Pedro Almodóvar -, foi comparado a “O pântano”, de Lucrécia Martel, e a “XXY”, de Lucía Puenzo, ambos filmes argentinos. Essa comparação é bem acessível. Do filme de Martel, pode-se encontrar em comum o relato de férias de verão e a presença de uma festa popular. Da obra de Puenzo, o segredo referente à sexualidade. Os três longas-metragens trazem crianças ou adolescentes como protagonistas. No entanto, as comparações param por aí. No filme de Julia, o relato é de uma amargura doce, elemento que não está presente em nenhum dos outros dois filmes citados. Uma menina, Jorgelina, passa as férias de verão numa fazenda na província de Entre Ríos, na Argentina. Lá, ela se encontra com Mario, um garoto que tem pouco mais do que a sua idade e com quem irá desenvolver uma intensa amizade. Os dois passam por uma fase de auto-conhecimento: para a menina, a espera da menstruação e da adolescência; para o garoto, filho dos empregados da fazenda, por perceber que há algo diferente em seu corpo que o torna especial.  O segredo é o que gera a tensão do filme. Em um ambiente bucólico, a trama se desenvolve sutilmente com alguns relevos que trazem a lembrança do problema: os restos de sangue de uma galinha que foi morta, a carne da vaca que é cortada. Diferente da protagonista de “XXY”, Mário não é agressivo. Com a ajuda de sua amiga Jorgelina, inicia a busca pela resolução do conflito. Neste filme, a superação da vergonha e da ignorância.

beto_1“Parque Vía”, de Enrique Rivero, foi ganhador do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. É produção mexicana, apesar de seu diretor ter nacionalidade espanhola. É de uma simplicidade narrativa estupenda, de uma sobriedade que culmina em um final delirante. Beto é o caseiro responsável por uma mansão que está à venda há muitos anos. Acostumado com a solidão e com a rotina que desenvolveu após viver tantos anos sozinho, passa por um dilema quando a casa é vendida. Ele terá que buscar outro lugar e outra coisa para fazer de sua vida. No entanto, Beto não consegue viver fora dali. Sua agonia ao ser obrigado a estar fora da casa afeta a matéria do filme, torna a imagem turva e obscura, contraposta ao rigor com o qual as imagens de sua rotina – o equilíbrio – são construídas. Um filme silencioso, perturbado somente pela visita de Lupe, uma prostituta, pela chegada da dona da casa e pelo ruído da televisão. Ótimo e belo filme que, sem dúvidas, merece ser visto.

Deixo de fora dessa lista o filme argentino “Todos mienten”, de Matías Piñeiro. Neste filme bastante arrogante e despropositado, um grupo de jovens, que vive numa casa isolada, passa por diversos conflitos referentes a seus relacionamentos. O maior deles envolve uma garota que escreve um livro cujo conteúdo não pode ser revelado a seus colegas – ditando-o em um gravador que todas as noites é transcrito secretamente por outra garota. Em torno dela está uma história sobre maldição de família e algum tipo de ritual que não chega a ser totalmente revelado. Os jovens às vezes revelam, às vezes escondem as suas histórias e as ações que realizam. Em um jogo de verdades e mentiras, nada chega a ser definitivo. É um filme romântico, herança de Truffault, que joga com inúmeras questões sem conseguir resolvê-las. A direção de arte e a fotografia são lindas – mais uma vez, a fascinação pela estética retrô. No entanto, falta paciência para terminar de ver o filme e esperar que algo seja dito.

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Clique aqui e veja uma entrevista com Julia Solomonoff para o site argentino Noticine.

Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“El último verano de la Boyita”, de Julia Solomonoff, 86 minutos

Sessões: dia 10 de novembro às 19:30h, dia 14 de novembro às 19:50h

“Parque Vía”, de Enrique Rivero, 86 minutos

Sessões: dia 10 de novembro às 21:10h

“Todos mienten”, de Matías Pinheiro, 75 minutos

Sessões: dia 10 de novembro às 18:20h, dia 11 de novembro às 17:20h, dia 15 de novembro às 15h

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6 Responses to “Amargura, solidão e dolicidade em dois filmes latinos: “El último verano de la Boyita” e “Parque Vía””


  1. 10 de novembro de 2009 às 13:48

    Assino embaixo do que você disse sobre os três filmes, Rafa. Coincidentemente, eu estava nas mesmas três sessões que você (acho que você não me viu).
    Concordo com relação ao baixo púlbico desses filmes e acho que quem diz que não tem filme bom no FIC é porque não sabe escolher.
    Mas até a gente se engana, ao ver filmes arrogantes (como você bem disse) como Todos Mienten.
    La Boyita é a delicadeza e o bom gosto em película, Parque Vía é a contemplação do silêncio com um final genial e Todos Mienten… bem, este não é nada.

    • 10 de novembro de 2009 às 14:31

      Oi Fred! Te vi sim no Parque Vía! Este filme está, sem dúvida, na minha lista de preferidos do FIC. Tô quase pra grudar um cartaz na porta do cinema pedindo pra que as pessoas o assistam!! Há muito tempo eu não via um filme tão genial! Eu fui assisti-lo quase às escuras, mal sabendo do que se tratava… Quanto ao Todos mientes… pala errada!

  2. 3 Marina
    10 de novembro de 2009 às 15:21

    Eu acho válida a idéia de grudar um cartaz, de chamr pessoas para verem. Comecem pelo twitter – todo dia, feito manifestação! haha

    Queria poder ver tantos assim. Depois tenho que avaliar o que ainda é possível ver…

  3. 4 MARCO BONATTI
    11 de novembro de 2009 às 8:00

    Nossa, que dificuldade pra ver o Parque Via. Ontem dia 10/11/2009, terça, havia um cartaz, avisando a troca do Parque Via, pelo Coyote. Mas fui reclamar na produção e tive a sorte e a grata surpresa de ser atendido por uma pessoa competente. Tendo em vista não ter aparecido ninguém para assistir o Coyote, a produtora me procurou pelos corredores do Cine Academia, e trocou o Coyote pelo Parque Via novamente.
    Resumo da Opera: Assisti ao Parque Via, “no Grito” e de graça, ganhei cortesias para outra sessão e principalmente, fui presenteado por mais um GRANDE filme.

    Nota Baixa: Deixei passar o Romeno Politist Adjectiv de Corneliu Porumboiu – Um dos melhores filmes de Cannes, esse ano. Os romenos são bons pra ……, desculpem o termo, mas é a mais pura verdade.

  4. 6 MARCO BONATTI
    13 de novembro de 2009 às 11:54

    O Diretor do Tatarak é o mesmo do Taxi Blue? Este filme é dos melhores que já vi. Puxa vida acho que vi este filme a 15 anos atrás. Mas enfim, não posso deixar passar o Tulpan hoje e depois já quero emendar com o “Prince of Broadway” (o segundo é indicação sua por sinal).

    Não vi nada escrito sobre o “Viajo porque Preciso, volto porque te amo” em seu blog. Se ainda não viu, POR FAVOR, não deixe ver, hein? O filme é arrepiante, mágico, hipnótico, blá, blá….., bom daria pra encher seu “quadro de comentários” com elogios a essa Pequena(1 hs e 15min) Grande Perola do Cinema Nacional.


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Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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