Posts Tagged ‘cinema francês

17
jan
10

“Não, minha filha, você não irá dançar”, novo filme de Christophe Honoré, estreou essa semana nos cinemas

Distante da badalação dos concorrentes ao Globo de Ouro, está o lançamento do novo de Christophe Honoré. O filme chega aos cinemas brasileiros com alguns meses de atraso, tendo passado pela mostra de São Paulo em outubro. Honoré é o diretor de “A bela Julie” (2007) e “Canções de amor” (2008) e deus queira que ele continue lançando um filme por ano.

"Não, minha filha, você não irá dançar" ("Non ma fille, tu n'iras pas danser", 2009)

Em “Não, minha filha, você não irá dançar”, Honoré traz alguns elementos que ja estavam presentes ao menos em dois de seus filmes anteriores: a obsessão com certos atores – grande ponto de reconhecimento de suas obras -, a crise no ambiente familiar e a iminência da morte. A protagonista, Lena, é agora interpretada por Chiara Mastroianni – filha de Marcelo Mastroianni e Catherine Deneuve. Chiara aparece no filme de 2007 num pequeno e charmoso papel e, no de 2008, ganhando maior visibilidade como a irmã da protagonista. Louis Garrel, como não poderia deixar de ser, também está de volta. Por outro lado, Honoré deixa de lado o romantismo das músicas cantadas pelos personagens para abordar a intensidade de um drama feminino.

A ação que antes se desenvolvia pela tensão sexual, anda em “Não, minha filha…” a partir do drama da protagonista, uma mulher recém-divorciada em fuga. A primeira cena do filme adianta ao espectador o caos vivido por Lena. Numa estação de trem movimentada, ela procura o filho que se perdeu. Mantendo nos braços a outra filha pequena e carregando uma mala, ela grita pela criança e a encontra perto de um pombo ferido. Convencida pelos pequenos, ela esconde o pombo na bolsa e o leva para casa. No entanto, o pombo morre e Lena é acusada pelo filho, uma criança de cerca de dez anos – que, por mais contraditório que possa ser, é o ponto de equilíbrio da mãe – de não conseguir nem “manter um pombo vivo”. Lena é uma mulher confusa que busca apoio de seus pais controladores, cheia de vontades e desvontades, numa quase paródia da situação feminina. Uma grande personagem com uma grande interpretação de Chiara. Outro elemento bastante interessante desse filme é o espaço para o desenvolvimento de outros personagens. Há uma sequência primorosa onde se mostra a história que o filho de Lena lhe conta através de imagens de sua imaginação. Pausa admirável, assim como a trilha sonora a cargo de Anthony and the Johnsons.

Pra mim é muito dificil desvencilhar as três obras de Honoré. Acredito que, para quem ainda não conhece o trabalho do diretor, será um grande prazer ver os três filmes na sequência.

"A bela Julie" ("La belle personne", 2008)

"Canções de amor" ("Les chansons d'amour", 2007)

“Não, minha filha, você não irá dançar”, de Christophe Honoré,105 minutos.

Assista ao trailer do filme.

Lançamento em 15 de janeiro de 2010.

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16
nov
09

Museu da República abriga mostra retrospectiva do cineasta francês Claude Lelouch

Lelouch poucas vezes é citado quando se pensa em cinema francês. Junto aos cultuados Godard, Truffaut e Resnais, esteve na Cahiers du Cinéma, fazendo crítica de cinema e rodando filmes. No entanto, é vítima de certo preconceito dos seguidores mais fervorosos deste grupo. Isso porque seus filmes foram considerados comerciais. Dono de uma enorme filmografia, ganhou por “Um homem, uma mulher”, de 1966, a Palma de Ouro, o Oscar de melhor filme estrangeiro e o de roteiro original. Este é seu filme mais cultuado e estará presente na mostra que terá lugar no Museu da República a partir do dia 19 deste mês. Este filme deu margem à produção de “Um homem, uma mulher – 20 anos depois”, seqüência lançada em 1986 que revisita os personagens da obra que lhe deu início. Com trilha sonora composta por músicas de Vinícius de Moraes e Baden Powell, “Um homem, uma mulher”, assim como grande parte de sua obra, tem como mote o sentimento humano em filmes de intenso cuidado plástico.

Um homem, uma mulher 2

"Um homem, uma mulher"

Mulheres e homens, modo de usar

"Mulheres e homens: modo de usar"

Os filmes de Lelouch têm traços inconfundíveis. É um cinema sentimentalista – algumas vezes classificado como cafona – que lida com grandes temas. Senti falta do filme “Retratos da vida”, um dos grandes de sua carreira que, apesar de ter sido lançado em DVD – diferente de grande parte dos filmes que compõem a mostra em sua homenagem – é de difícil acesso, estando esgotado na maioria das lojas do gênero. Este filme lida com cenas de canto e dança. Aliás, a música, assim como os relacionamentos amorosos, está sempre presente em suas obras, gerando impacto e com grande participação na narrativa. Lelouch é uma das afirmações do cinema de autor.

A mostra percorre a obra de Lelouch em filmes de diversas décadas, estando o mais recente, “A coragem de amar”, em 2005. O cineasta ainda está na ativa e prepara o lançamento, para 2010, de seu mais novo filme, “Ces amours là”, nova parceria com Anouk Aimée, atriz que esteve no elenco de “Um homem, uma mulher”.

Leia: Texto de André Setaro, “Em defesa de Claude Lelouch”

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Confira a programação da mostra “O cinema de Claude Lelouch”. Todos os filmes têm legenda em português e a entrada é gratuita:

19/11, quinta-feira às 19h: “A dama e o gângster” (“La bonne annee”, 1973, 90 minutos)

Sinopse: “Um gângster arquiteta e prepara, com seu cúmplice, o primeiro assalto psicológico a mão-armada da História do Crime. Bem próximo da famosa Joalheira Van Cleef & Arpels de Paris, o dono de um antiquário começa a observar o movimento, a fim de armar uma trapaça.”

20/11, sexta-feira às 19h: “Itinerário de um aventureiro” (“Itinéraire d’un enfant gâté”, 1988, 125 minutos)

Sinopse: “Ex-garoto abandonado que cresceu num circo, Sam Lion é obrigado a repensar sua vida depois de um acidente no trapézio. Torna-se um dirigente empresarial. Mas várias décadas se passam e ele, agora com mais de cinqüenta anos, está convencido de que os mais belos anos de sua vida são aqueles ainda não vividos. Ele quer ir além do que já viveu. Decide abandonar tudo, suas responsabilidades no escritório, seu segundo casamento, seus filhos Jean-Philippe e Victoria, e desaparecer a bordo de seu barco. Viaja para a África, onde busca refúgio próximo de seus conhecidos, os leões. Mas o passado irá encontrá-lo nas longínquas savanas na figura de Albert Duvivier, um de seus ex-patrões.”

21/11, sábado às 19h: “Um homem, uma mulher” (“Un homme et une femme”, 1966, 102 minutos)

Sinopse: “Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier encontram-se acidentalmente durante visita a seus respectivos filhos num colégio interno a cada final de semana. Certa vez, Anne perde o trem e ele oferece a ela uma carona de volta a Paris.”

22/11, domingo às 18h: “Mulheres e homens: modo de usar” (“Hommes, femmes, mode d’emploi”, 1996, 118 minutos)

Sinopse: “Brilhante advogado, Benoit Blanc leva uma vida trepidante entre seus casos, que conduz com a energia dos conquistadores. Uma hiper-atividade que se repercute na saúde: ele sofre com complicações gástricas e tem que consultar um especialista, o professor Lerner. Na sala de espera do médico, Benoit reencontra o Inspetor Fabio Lini, antigo ator que entrou para a polícia depois de abandonar os palcos. Angustiado e receoso, Lini é imediatamente seduzido pelo temperamento do advogado.”

24/11, terça-feira às 19h: “Tem dias de lua cheia” (“Il y a des jours… Et des lunes”, 1990, 117 minutos)

Sinopse: “Corre o mês de março, horário de verão. Uma hora a menos. Além do mais, há a famosa lua cheia. Os comportamentos se exacerbam e as tensões e o mau humor se espalham como epidemia. Tudo pode mudar de uma hora para outra na vida desses personagens: o caminhoneiro que nunca chega ao fim de suas rotas, o médico que ama em excesso seus pacientes, uma mulher solitária e outra ingênua, o padre que crê no amor, o cantor abandonado, um lunático, um aposentado que sabe tudo e outro nostálgico, a jovem que sempre terá 19 anos, os noivos de uma noite apenas e tantos outros tipos.”

25/11, quarta-feira às 19h: “A coragem de amar” (“Le courage d’aimer”, 2005, 103 minutos)

Sinopse: “Segundo filme da série que Lelouch batiza de Le Genre Humain (o gênero humano), mostra várias histórias, nas quais pessoas comuns envolvem-se em situações extraordinárias, como o caso da esposa de um policial moribundo que decide abandoná-lo; um sem-teto que se diz Deus; ou uma dupla de cantores de rua formada por um italiano cinquentão e uma pós-adolescente.”

26/11, quinta-feira às 19h: “O bom e os maus” (“Le bon et les méchants”, 1976, 120 minutos)

Sinopse: ” A história de Jacques, um jovem mecânico que sonha em se tornar um boxeador profissional, e seu amigo de coração, o judeu Simon. Na década de 1930, os dois homens roubam um carro com um motor poderoso que pode superar qualquer outro veículo de transporte rodoviário e embarcam numa vida de crimes. Quando o temido inspetor de polícia Bruno está prestes a levar os dois homens à justiça, estoura a Segunda Guerra Mundial. Jacques e Simon acabam, por acaso, apoiando a Resistência Francesa. Bruno conscientemente decide colaborar com a polícia alemã. Seus caminhos acabam se atravessando.”

Trailer aqui

27/11, sexta-feira às 19h: “Tudo isso pra isso?” (“Tout ça… pour ça!”, 1993, 120 minutos)

Sinopse: “Como num grande mosaico humano, Lelouch apresenta personagens e enredos paralelos para falar de amor e solidão. Segundo estatística, é no período das férias de verão que acontece o maior número de pedidos de divórcio. É também o momento em que há mais tentativas de suicídio. Num hospital, três sobreviventes se conhecem e conversam. Cria-se uma grande amizade entre eles que pensam em repetir as tentativas juntos. É uma história sobre a distração que resta, no final do século, a homens e mulheres: como se encontrar e se separar sem grande tormentas. Participação no elenco da atriz brasileira radicada na França Cristiana Reali. O ator Fabrice Luchini ganhou o prêmio César de ator coadjuvante.”

28/11, sábado às 19h: “Atenção bandidos!” (“Attention Bandits”, 1987, 111 minutos)

Sinopse: “Simon Verini, um vigarista notório, decide voltar à ativa depois que Mozart, o jovem líder de um bando de ladrões de jóias, coloca um negócio em seu caminho. Embora Verini esteja fora da Holanda, é chamado a encontrar um comprador para as jóias roubadas de Mozart. Para convencê-lo, sua mulher é seqüestrada e mantida como refém. Embora Verini aceite a pressão e receba as jóias das mãos do seqüestrador, sua esposa é morta diante de seus olhos. Pouco depois, ele é preso pelo roubo das jóias e enviado para a prisão por dez anos. Antes de ir, tem tempo apenas para encontrar um lugar para sua filha, Marie-Sophie, em uma escola suíça de elite. Ao sair, dez anos depois, Verini recolhe sua filha, agora uma mulher adulta jovem, e persegue o assassino de sua esposa.”

Trailer aqui

29/11, domingo às 18h: “Sorte ou coincidência” (“Hasards ou coïncidences”, 1998, 120 minutos)

Sinopse: “Myriam, uma bailarina divorciada e com um filho, Serge, de oito anos, apaixona-se por Pierre, um comerciante de arte e falsificador. Depois de um curto período de felicidade, que Serge filma com a sua câmera de vídeo, Pierre leva mãe e filho numa longa viagem, que é interrompida de forma trágica. Mas o que poderia gerar apenas dor e sofrimento apresenta também novas possibilidades de vida para Myriam.”

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Serviço:

Curadoria: Sergio Moriconi

Auditório 2 do Museu Nacional da República

19 a 29 de novembro de 2009

Informações: (61) 3443-8891

Crédito das fotos: divulgação 13 films

29
set
09

“Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”

Chega ao Festival de Cinema do Rio “As praias de Agnès”,  último e derradeiro filme de Agnès Varda. Ela, a garota em meio aos rapazes da Nouvelle Vague, está hoje com 81 anos e acumula uma inquieta obra que conta com, além de ficções e documentários, fotografias e pinturas. Neste documentário autobiográfico, Varda fala de sua vida e de sua infância, trazendo como principal memória a imagem das praias que marcaram sua história. É um filme de despedida.

É muito fácil gostar da Agnès, principalmente sendo mulher. Os seus filmes não se encaixam numa política de gênero, mas trazem certa afetuosidade feminina a qual é difícil não se identificar. Seu olhar delicado repousa sobre temas acres, tece retratos de mulheres fortes e controversas. Tenho um postal dela colado no meu quarto, presente de alguém especial que viu essa foto em meio a várias outras e sem querer a escolheu. Presente certo que deixou na parede uma presença. Saiu na ilustrada de ontem uma pequena entrevista com a diretora que, mais do que me dar vontade de assistir ao “As praias de Agnès”, me lembrou um outro filme dela (título deste blog) que me marcou bastante e que também fala de morte, memória e praia.

“Como ninguém reclamou o corpo, foi enterrada em uma vala comum. Ela tinha morrido de morte natural sem deixar rastro. Imagino se quem a conheceu criança ainda pensa nela. Mas as pessoas que ela tinha conhecido recentemente se lembravam dela. Essas testemunhas ajudaram-me a contar as últimas semanas de seu último inverno. Ela deixou sua marca sobre eles. Eles falavam dela, não sabendo que ela tinha morrido. Não quis dizer a eles. Nem que o nome dela era Mona Bergeron. Eu mesma sei pouco sobre ela, mas parece-me que ela veio do mar.” (transcrição da narração de um trecho do filme)

Em “Sem teto nem lei”, Agnès faz uma apresentação comovente de sua protagonista, Mona, e sai em busca de seu passado. Uma andarilha morre de frio e numa espécie de “Cidadão Kane” feminino e desglamourizado, ela é analisada, após sua morte, pelos olhos dos outros, interrogados pela câmera de Varda e com a narração da própria autora. Mona, uma figura desajeitada que quase passa despercebida – oposta a ostentosa Cléo, protagonista de outro filme de Agnès -, reflete a generosidade e arrogância daqueles com quem se relaciona. Ela ri sozinha e mantém uma postura altiva, transformando-se num personagem cordial. É um bom filme para ser visto e revisto.

Duas imagens de “Sem teto nem lei” e a fotografia da parede, “Sofia Loren em Portugal”

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Outras coisas:

Reportagem da Folha de São Paulo sobre o novo filme da Agnès Varda

Cinemateca da embaixada da França




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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