Posts Tagged ‘cinema latino

13
nov
09

“Hiroshima”, de Pablo Stoll: ensaio ou frustração?

hiroshima

“Hiroshima”, de Pablo Stoll, não é um musical. Tampouco é um drama, romance ou comédia. É mais um filme demasiado cansativo que tenta transitar – ou subverter – as normas destes gêneros sem, ao fim, se identificar com nenhum. Fui assisti-lo com muita expectativa. Stoll foi co-diretor de “Whisky”, um dos filmes que mais gosto. No entanto, fui embora da sessão bastante desapontada e entediada

Juan, o protagonista, sai do trabalho, vai pra casa e vê um bilhete de seus pais. A ele são atribuídas diversas tarefas domésticas. Ele as realiza, sai de casa, encontra sua namorada, se despede dela e encontra alguns amigos. Passa o dia com eles. Anoitece e ele vai a um bar para se apresentar numa banda de rock. Fique tranqüilo(a), o enredo do filme, que contei aqui por inteiro, não faz muita diferença. Se este filme pode tocar alguém, é pela subversão de gênero – bem batida, diga-se de passagem – e pela beleza que alguns planos. O filme é todo uma seqüência de historietas, construídas a partir da linguagem de vídeo-clip. Cada uma dessas ações forma um núcleo que recebe um tratamento específico em imagem. O filme tem algumas “sacadas” que são interessantes como, por exemplo, a inverção da base dos musicais. A trilha sonora persiste em todos os momentos da obra e só falta na hora dos diálogos que, ou são sobrepostos pela música ou ocorrem no silêncio para depois ser mostrada uma cartela com os dizeres dos personagens. Situação que, de maneira previsível, se inverte ao final. Legal, né? Também achei, mas estendido por 80 minutos, passa a ser insuportável.

Para mim, ele é o ensaio do que poderia vir a ser um bom filme. Ou, o que poderia ter sido um bom curta-metragem.

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Em cartaz no XI FIC Brasília. Academia de Tênis José Farani

“Hiroshima”, de Pablo Stoll, 80 minutos

Sessões: 14 de novembro às 19:50h

11
nov
09

Ela é o demônio: “La Nana”, de Sebastián Silva

lananaPense na seguinte situação: sua empregada doméstica, que trabalha em sua casa há 20 anos, começa a dar sinais de desleixo. Ela não obedece mais suas ordens, detesta um membro da família, dedura ações inocentes de outros e inferniza a vida de novos empregados da casa. O que fazer? Demitir? Agora pense o contrário: você é empregada doméstica de uma casa por 20 anos. Você até é tratada com carinho, mas tem que lavar a louça da festinha que seus chefes fizeram para seu próprio aniversário. Você perdeu seus vínculos familiares e tenta criar conexões com a família para quem trabalha, no entanto, é tratada apenas como a empregada. O que fazer? Descontar nos outros a raiva que sente?

É dessa delicada relação entre patrões e empregada doméstica que trata La Nana, filme do chileno Sebastián Silva. Como todo problema delicado que ocorre no ambiente familiar, o caso de Raquel, a empregada problemática, é tratado com muitos dedos pelos patrões. Pilar, a mãe da casa, é a que mais sente pena de Raquel. Quanto mais Raquel nota a complacência dos patrões, mais se sente no direito de continuar fazendo o que bem entende. Claro, sempre se fazendo de vítima. A vida de Raquel só muda quando ela conhece Lucy, uma das novas empregadas que Pilar tenta colocar em casa. O que essa mulher faz para conseguir se aproximar de Raquel fica para quem assistir o filme!

La Nana começa ácido e termina terno. Raquel é uma anti-heroína. Impossível não odiá-la nos primeiros minutos da fita. No entanto, como boa vilã que é, suas ações trazem momentos hilários. Mas é igualmente impossível não sentir carinho por ela no final (outra bela interpretação, agora, da atriz Catalina Saavedra). A direção é naturalista, casando com as situações cotidianas e tornando as explosões emocionais das personagens muito realistas.

Com certeza o filme entra para as belas surpresas latino-americanas presentes no FIC.

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“La nana”, de Sebastián Silva, 115 minutos

O filme esteve em cartaz pelo XI FIC Brasília. Agora, é torcer para ele ser distribuído no Brasil!

11
nov
09

“Arranca-me a Vida”, belo melodrama mexicano de Roberto Sneider

arrancame-la-vidaNa década de 30, a jovem Catalina Guzman, de apenas 16 anos, conhece o militar Andres Ascencio, homem com o qual ente se casa e com quem descobre um mundo novo: o do sexo. Aos poucos, Andres se mostra um homem machista. No entanto, Catalina é esperta: se ele a trai, ela também o faz; se ele é grosseiro, ela faz algo que o irrita. O rumo da relação começa a mudar quando Catalina descobre os meios que o marido usa para ascender politicamente. Assassinatos, chantagens, abuso de poder. O amor de Catalina acaba e quem começa a sentir a força política de Andres é ela. O resumo de Arranca-me a Vida já dá sinais do que se esperar desse filme: é um melodrama. Temos a mocinha que sofre até encontrar a felicidade. Porém, diferente das heroínas típicas deste gênero, Catalina não é passiva. Ela busca sempre a felicidade e, se sofre, é por enfrentar o marido. Por isso tudo que o filme, em momento algum, é tedioso. Catalina é uma mulher forte que luta, cai, ergue a cabeça e tenta novamente, nunca se conformando com uma situação que não lhe é favorável.

Catalina é vivida pela jovem e competente Ana Claudia Talacón. Talacón conseguiu destaque internacional após o sucesso da adaptação de O Crime do Padre Amaro para o cinema e, andando por terrenos americanos, participou de filmes como Fast Food Nation. Não é por acaso. Além de linda, Talacón parece realmente passar dos 16 aos 30 anos durante as passagens de tempo do filme, apenas mudando a postura de sua personagem. Mérito da atriz, que parece ter compreendido perfeitamente Catalina.

O que pode não levar o público do FIC a ver Arranca-me a Vida são seus ares hollywoodianos. O filme é uma superprodução mexicana de época (impecável), o que pode afastar o público sedento por “filmes alternativos”. Bobagem. Para quem está procurando um bom entretenimento, Arranca-me a Vida é uma bela pedida.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Arranca-me a Vida”, de Roberto Sneider, 88 minutos

Sessões: dias 11 e 12 de novembro às 19:30h

10
nov
09

Amargura, solidão e dolicidade em dois filmes latinos: “El último verano de la Boyita” e “Parque Vía”

As melhores experiências que tive, neste festival, foram com filmes latinos. Já falei bastante da Argentina neste blog, até cheguei a pensar que era uma obsessão minha. Ontem, depois de algumas escolhas erradas, assisti “El último verano de la Boyita”, de Julia Solomonoff, produção argentina, e, no fim da noite, “Parque Vía”, de Enrique Rivero, produção mexicana. Os dois, com o cinema quase vazio. Uma pena, pois estes dois filmes – sei que pode parecer exagerado e juro que procurei outra maneira de dizer isso – me lembraram porque eu escolhi o cinema como profissão. Perdidos entre tantos filmes que ganharam Cannes, estiveram em Veneza, que são de diretores renomados e contaram com grandes orçamentos, estão estes dois filmes de sutileza dramática, narrativa sóbria e intensidade sentimental. Não é simples defini-los. Basta dizer que são feitos para demonstrar qual a diferença entre o bom e o mau uso do cinema. Porque cinema se faz com bons personagens, rigor narrativo e apuro estético, não importa a história que se deseja contar. Bom, depois desse desabafo, vamos aos filmes:

Boyita

“El último verano de La Boyita”, de Julia Solomonoff – pupila de Pedro Almodóvar -, foi comparado a “O pântano”, de Lucrécia Martel, e a “XXY”, de Lucía Puenzo, ambos filmes argentinos. Essa comparação é bem acessível. Do filme de Martel, pode-se encontrar em comum o relato de férias de verão e a presença de uma festa popular. Da obra de Puenzo, o segredo referente à sexualidade. Os três longas-metragens trazem crianças ou adolescentes como protagonistas. No entanto, as comparações param por aí. No filme de Julia, o relato é de uma amargura doce, elemento que não está presente em nenhum dos outros dois filmes citados. Uma menina, Jorgelina, passa as férias de verão numa fazenda na província de Entre Ríos, na Argentina. Lá, ela se encontra com Mario, um garoto que tem pouco mais do que a sua idade e com quem irá desenvolver uma intensa amizade. Os dois passam por uma fase de auto-conhecimento: para a menina, a espera da menstruação e da adolescência; para o garoto, filho dos empregados da fazenda, por perceber que há algo diferente em seu corpo que o torna especial.  O segredo é o que gera a tensão do filme. Em um ambiente bucólico, a trama se desenvolve sutilmente com alguns relevos que trazem a lembrança do problema: os restos de sangue de uma galinha que foi morta, a carne da vaca que é cortada. Diferente da protagonista de “XXY”, Mário não é agressivo. Com a ajuda de sua amiga Jorgelina, inicia a busca pela resolução do conflito. Neste filme, a superação da vergonha e da ignorância.

beto_1“Parque Vía”, de Enrique Rivero, foi ganhador do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. É produção mexicana, apesar de seu diretor ter nacionalidade espanhola. É de uma simplicidade narrativa estupenda, de uma sobriedade que culmina em um final delirante. Beto é o caseiro responsável por uma mansão que está à venda há muitos anos. Acostumado com a solidão e com a rotina que desenvolveu após viver tantos anos sozinho, passa por um dilema quando a casa é vendida. Ele terá que buscar outro lugar e outra coisa para fazer de sua vida. No entanto, Beto não consegue viver fora dali. Sua agonia ao ser obrigado a estar fora da casa afeta a matéria do filme, torna a imagem turva e obscura, contraposta ao rigor com o qual as imagens de sua rotina – o equilíbrio – são construídas. Um filme silencioso, perturbado somente pela visita de Lupe, uma prostituta, pela chegada da dona da casa e pelo ruído da televisão. Ótimo e belo filme que, sem dúvidas, merece ser visto.

Deixo de fora dessa lista o filme argentino “Todos mienten”, de Matías Piñeiro. Neste filme bastante arrogante e despropositado, um grupo de jovens, que vive numa casa isolada, passa por diversos conflitos referentes a seus relacionamentos. O maior deles envolve uma garota que escreve um livro cujo conteúdo não pode ser revelado a seus colegas – ditando-o em um gravador que todas as noites é transcrito secretamente por outra garota. Em torno dela está uma história sobre maldição de família e algum tipo de ritual que não chega a ser totalmente revelado. Os jovens às vezes revelam, às vezes escondem as suas histórias e as ações que realizam. Em um jogo de verdades e mentiras, nada chega a ser definitivo. É um filme romântico, herança de Truffault, que joga com inúmeras questões sem conseguir resolvê-las. A direção de arte e a fotografia são lindas – mais uma vez, a fascinação pela estética retrô. No entanto, falta paciência para terminar de ver o filme e esperar que algo seja dito.

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Clique aqui e veja uma entrevista com Julia Solomonoff para o site argentino Noticine.

Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“El último verano de la Boyita”, de Julia Solomonoff, 86 minutos

Sessões: dia 10 de novembro às 19:30h, dia 14 de novembro às 19:50h

“Parque Vía”, de Enrique Rivero, 86 minutos

Sessões: dia 10 de novembro às 21:10h

“Todos mienten”, de Matías Pinheiro, 75 minutos

Sessões: dia 10 de novembro às 18:20h, dia 11 de novembro às 17:20h, dia 15 de novembro às 15h

08
nov
09

Produção paraguaia no XI FIC: “Quero que você leia Pantagruel”, de José Eduardo Alcázar

Pantagruel_1Fui atraída por esse filme mais por sua origem do que por ter criado expectativas de ver um ótimo filme. É importante montar um panorama do cinema que se está produzindo na América Latina. Os destaques argentinos, chilenos e uruguaios chegam facilmente aos nossos cinemas. Tempos atrás, um peruano atraiu a atenção do público de cinema. Era “A teta assustada”, de Claudia Llosa. Desta vez, um filme paraguaio – apesar do diretor ter nacionalidade brasileira – me atraiu. “Quero que você leia Pantagruel”, de José Eduardo Alcázar, é feito com um naturalismo delicioso. Um intelectual obcecado pelo livro “Pantagruel”, de Rabelais, recebe à sua porta uma mulher em busca de emprego. Ele a aceita em sua casa como empregada doméstica e busca incentivar o seu gosto pela literatura. É um filme para quem aprecia mais do que a literatura, é feito pra quem gosta de discursos sobre literatura. A câmera toma o lugar documental – se chega a escutar a voz de outra pessoa que, ao que parece, é o diretor do filme – e registra os delírios do protagonista que também ocupa a função de narrador. Delírios estes que não interessam à outra personagem do filme, justamente a quem são direcionados. O mérito do longa-metragem está na interpretação do protagonista. O resultado final? Apesar de alguns pontos positivos, a obra parece terminar sem nem mesmo ter começado.

De início, percebi um filme bem construído, apesar dos visíveis parcos recursos com o qual foi produzido. No entanto, apesar de alguns intervalos bonitos de tom poético-erótico, se mostra um filme bastante equivocado. O argumento poderia ter sido aproveitado de outra maneira, pois a produção contava com um excelente elenco. Mas parece que Alcázar não se preocupou muito com o que o público viria a achar de seu filme. Além disso, a projeção foi bastante bagunçada com legendas não entravam na hora certa e problemas com a qualidade da cópia.

Saí da projeção com inúmeras dúvidas. A primeira, por causa de uma trilha sonora que não monta com a imagem. Alguns momentos contam com trilha sonora pomposa, cobrindo ações do cotidiano, enquanto outros momentos de igual intensidade contam com o silêncio. A segunda, e a mais importante de todas, por não resolver nenhum dos conflitos do filme: um depósito misterioso no fundo da casa, onde o dono da casa impede que a empregada se aproxime – conflito que poderia dar uma boa história -, e a própria relação do patrão e da empregada. Durante o filme, o protagonista deslancha suas impressões sobre cinema. Ele fala sobre os bons filmes, aqueles que têm um propósito determinado e conseguem concluí-lo. Mas algo desanda neste filme. E eu ainda espero esbarrar com algum outro filme paraguaio.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de tênis José Farani

Sessões: 9 de novembro às 20h e 15 de novembro às 19:20h

15
out
09

Tributo a La Negrita

Junto a Piazzolla, Borges e Gardel, Mercedes Sosa forma o hall das importantes figuras argentinas. Ela é, sem dúvida, uma das mais expressivas cantoras latino-americanas. “É”, no tempo presente, porque ela se recusou a morrer. Seu último álbum, “Cantora”, foi lançado este ano e vem acompanhado do registro visual das gravações em estúdio. Este documentário de 60 minutos, chamado “Mercedes Sosa – Cantora, un viaje íntimo”, mostra o making of da gravação deste álbum de duetos, depoimentos de Mercedes, nos quais ela retoma parte de sua trajetória, além dos testemunhos dos convidados. Se, por um lado, é visível o respeito que os convidados têm por Mercedes, é também impressionante a admiração que La Negra  dispensa aos cantores com quem divide o microfone. Tanto é que grande parte das músicas escolhidas para o álbum são dos convidados. São eles, entre outros, Caetano Veloso – com quem canta “Coração vagabundo” em português -, Julieta Venegas – artista pop mexicana que por aqui não chegou a fazer o sucesso que alcançou na América Latina -, Charly Garcia – é também um dos mitos argentinos, polêmico cantor, compositor e multi-instrumentista de rock -, Luis Alberto Spinetta – rockeiro argentino de grande sucesso na década de 70, por quem Mercedes dispensa grande empatia -, María Granas – que, segundo Mercedes, tem uma das mais lindas vozes -, e a brasileira Daniela Mercury.  A emoção com que La Negra canta e a crença na mensagem que passa – fique atento ao fim da música que canta com Spinetta – demonstram a devoção com a qual ela – e sua memória – deve ser tratada.

Mercedes representa muito ao patrimônio cultural americano, tanto musical quanto ideologicamente. É a maior voz do folclore latino americano e lidera um público heterogêneo. A música folclórica argentina é bastante difundida no país, inclusive entre os mais jovens. É também uma figura da resistência. Em 1979, em pleno regime ditatorial, ela e o público que assistia a seu show foram presos. Perseguida pelos militares por ser peronista, foi obrigada a se refugiar em Paris, voltando a Argentina somente em 1982.”Estava desesperada para voltar”, diz Mercedes durante o documentário.

“Cantora”, álbum duplo e documentário, foram lançados dois meses antes de sua morte. Com ares de tributo, Mercedes se despede cantando, na última cena do documentário, alguns versos de uma música de Charly Garcia. Bom, o que ela canta – capaz de impressionar até os não facilmente impressionáveis – fica pra quem tiver a oportunidade de ver o filme.

Veja aqui um trecho do documentário. A música é “Barro tal vez”, um dos hinos de Spinetta.




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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