Posts Tagged ‘documentário

13
nov
09

Um pouco de autopromoção. Mas… Porque não? “Boca a boca”, de Márcio Werneck

bocaA denúncia social é uma das vertentes mais fortes do documentário. Em “Boca a boca”, documentário brasileiro idealizado pela  ONG Turma do Bem, é realizado um discurso sobre a saúde bucal do país. A origem da idéia pode gerar certo preconceito no público de cinema mais ativo: seu idealizador é o “dentista dos famosos” Fábio Bibancos e, diga-se de passagem, um documentário sobre saúde bucal feito pr um dentista não aparentar ser muito atrativo. Então, o que traz um documentário neste formato para um festival de cinema? Eu diria que é porque o filme é muito bem construído e não tem a cara de filme institucional, tornando-se atrativo, sim, a quem gosta de cinema. Além do mais, trata de um tema que é de importância de todos e poucas vezes foi colocado em pauta. A ilustração do “país de desdentados” é feita através de depoimentos de crianças e adultos que são afetadas pelo problema. Pessoas envergonhadas, humilhadas, de baixa auto-estima, crianças que sofrem bullying por sua aparência. O filme clama por uma ação conjunta, mostrando a dificuldade em se conseguir apoiadores para o projeto e a “vista grossa” que é feita pelo governo.

É bem verdade que há interferências bastante desnecessárias, como por exemplo, os da atriz Lu Grimaldi. Ela quebra o ritmo do discurso ao aparecer – em cenas ficcionais – olhando em um vídeo-assist os depoimentos de algumas crianças e, no único momento em que fala – em cenas documentais -, recebe um corte brusco de edição. Esse cacuete de alguns documentários que se obrigam a inserir ficção num filme que anda muito bem somente como documentário afetou o ritmo de “Boca a boca”. Mas o resultado final ainda é o relato emocionado de um grave problema social. E fica na memória a expressão da garota que sorri pro espelho depois de conseguir consertar seus dentes. A mesma que, no início do filme, tapava a boca com as mãos, envergonhada.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Boca a boca”, de Márcio Werneck, 55 minutos

Sessões: dia 14 de novembro às 21:20h e 15 de novembro às 17:50h com a presença do diretor e da roteirista

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13
nov
09

“Tyson”, de James Toback: falatório incessante de um personagem que clama por redenção

tyson_movie“Tyson” é um filme extremamente verborrágico. Claro, grande parte dos documentários dedicam longo tempo ao falatório dos entrevistados. O que este filme tem de específico é extravasar esse conteúdo, num retrato obsessivo de um personagem que clama por redenção. Fui assisti-lo já sabendo que só iria encontrar relatos de Mike Tyson e algumas poucas imagens de arquivo. Encontrei a ilustração de várias conversas ao mesmo tempo, num efeito que dividia a tela, além da sobreposição de vozes, seqüelas do fluxo de consciência que caracteriza a passagem dos temas e do personagem que desata em discursos às vezes confusos.

Não consegui sentir simpatia por Tyson. Seu relato é monocorde, o mesmo tom com que fala de seu início no boxe, de suas vitórias, de sua família, usa para falar da sua acusação de estupro, da mordida em Holyfield, do problema com consumo de drogas, de sexo e gonorréia. Só interrompe este tom para falar de seu professor Cus, homem que teve grande importância em sua trajetória e a quem sua morte é o motivo encontrado por Tyson para justificar grandes erros de sua vida. Só falando dele Tyson consegue chorar. E só Cus consegue calar Tyson e é a única segunda voz que se escuta durante a uma hora e meia de filme. O documentário serve, talvez, aos psicólogos que queiram observar o transtorno de bipolaridade ou a algum aficionado pelo ex-boxeador. Sem ter afinidade com o personagem ou seu problema, assistir ao filme pode ser uma tortura.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Tyson”, de James Toback, 90 minutos

Sessões: Dia 13 de novembro às 18:10h, dia 14 de novembro às 17:50h e dia 15 de novembro às 17h

08
nov
09

“Maradona by Kusturica”: discurso político e afetivo de Kusturica sobre um de seus personagens preferidos

Entre 2005 e 2007, o sérvio Emir Kusturica fez na Argentina um documentário sobre um dos ícones máximos daquele país. Seu cinema, sempre kitsch, cômico, musical e exótico, agrega um personagem gerador de muita polêmica. “Se não fosse jogador, seria um revolucionário”, diz Kusturica sobre Maradona. Diz também que Maradona poderia ser um dos personagens de seu filme, citando “Você se lembra de Dolly Bell?”. Cobrindo a narração de Diego, que fala sobre sua overdose, de como ele achava que iria morrer e sua vista se llenava de sangre, em imagem é apresentada a cena de “Gato negro, gato branco” onde o avô do noivo, no porão da casa, desperta causando espanto depois de todos pensarem que ele estava morto. Diz também que se Andy Warhol estivesse vivo, colocaria Maradona junto a Elvis e Marilyn. Assim, cheio de analogias, Kusturica tece um retrato de um personagem não é capaz de ser definido com poucas palavras.

Maradona aproveita o espaço concedido a ele para esbravejar contra o imperialismo, contra os EUA, contra a Inglaterra, contra os napolitanos, contra João Havelange e contra muitos outros. Enfim, nada diferente daquilo que Maradona costuma dizer na mídia. E Kusturica se põe como o segundo personagem do filme, o provocador. Como autor do filme, se apossa do discurso de seu personagem. Ao som de Sex Pistols, é mostrada uma animação – um pouco tosca e cansativa – onde Maradona dribla Bush e a Rainha da Inglaterra. Depois, acompanhamos um encontro entre Maradona e Fidel, um discurso de Chavez acompanhado de Evo e a tatuagem de Che, em sua pose mais famosa, no braço do ex-futebolista. A visão política de seu personagem toma grande parte do tempo do filme e é, talvez, a menos interessante. Pelo menos pra gente, povo latino-americano, que acompanha esse discurso de perto. Aqui, em substituição ao cenário exótico dos Bálcãs, típico do cinema de Kusturica, está Buenos Aires, San Telmo e a Bombonera. Isso, como não poderia deixar de ser, ao som de cumbia, rock e batucada. Tudo junto e ao mesmo tempo.

O filme faz alguns intervalos bastante interessantes. Os delírios da “igreja maradonística” dizem mais do personagem – que se veste como a grande personalidade que todos lhe dizem ser – que as cenas de cunho político. Assim também dizem bastante as cenas em que Maradona fala de sua família e de seu vício pela cocaína, registros de um momento de sua vida em que estava em queda. Kusturica traça um retrato obsessivo sobre seu personagem, apossando-se de seu discurso de uma forma tendenciosa. Eu diria que Maradona poderia ser um personagem melodramático mexicano ou colombiano, exagerado, às vezes patético, mas, por ser isso tudo, carismático e afetivo.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de tênis José Farani

“Maradona by Kusturica”, de Emir Kusturica, 90 minutos

Sessões: 8 de novembro às 17:30h, 12 de novembro às 19h e 14 de novembro às 19:30h

19
out
09

Confira os selecionados para a mostra competitiva do FIC Brasília 2009 – Parte 1

Férias marcadas, novembro é o mês que vou me dedicar a ver cinema. Primeiro, o FIC – Festival Internacional de Cinema – e, na sequência, o Festival de Cinema de Brasília. Agora, o problema número 2: com tantos filmes que irão ser exibidos no FIC 2009 – que conta com quase 100 filmes -, fica difícil escolher o que ver. Começo minha seleção pela mostra competitiva que, nas edições anteriores do FIC que acompanhei, não me decepcionou.

Lembrando: O FIC 2009 começa no dia 4 de novembro e vai até o dia 15, com sessões diárias no Cine Academia e Centro Cultural Banco do Brasil. Assim que forem divulgados os horários dos filmes, faço um update!

Este post é dividido em três partes, o restante dos filmes entrará nos próximos dias.

1. “Defamation”, de Yoav Shamir, co-produção Israel/Austrália/EUA/Dinamarca, 91 minutos.

Este filme esteve na première mundial do Festival de Berlim e no BAFICI, Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires. Os outros dois longas do seu diretor, Yoav Shamir, já passaram por Brasília. Em 2004, seu filme de estréia, “Checkpoint”, esteve no “É tudo verdade” e, em 2006, o filme “Cinco Dias” esteve na mostra competitiva no FIC. Em “Defamation“, Yoav volta ao ambiente já retratado em seus outros dois filmes: a luta ideológica e política entre palestinos e israelenses. Com tom satírico, o autor, um judeu de Israel, se pergunta o que é o antisemitismo, tema bastante importante para o seu povo. Shamir vai ao encontro de instituições que tratam de denúncias contra o antisemitismo, conversa com estudiosos sobre o tema e descobre um “turismo do holocausto”.

2. “El nino pez”, de Lucía Puenzo, co-produção Argentina/França/Alemanha, 96 minutos.

Um dos filmes que aguardo com mais curiosidade. As obras de Lucía Puenzo são boas amostras do cinema que está se produzindo na Argentina. Foi dela o prêmio de melhor filme da mostra competitiva do FIC 2007, com o longa “XXY”. El nino pez estreou com destaque no Festival de Berlim. A lenda paraguaia do menino peixe é contada por Ailín à Lala, a filha do dono da casa onde trabalha. As duas dividem um segredo – e um pacto – que é o ponto inicial da trama. Em mais um drama familiar, Lucía avança e trabalha com temas que tangenciavam sua obra anterior, como o amor homossexual entre duas mulheres. Tema que passa próximo também de “O Pântano”, da argentina Lucrécia Martel, no tratamento que oferece ao relacionamento entre Isabel e Momi, respectivamente a empregada e a filha mais nova da dona da casa.

3. “Francia”, de Andrián Caetano, produção Argentina, 77 minutos.

Adrián Caetano esteve no Brasil há pouco tempo pela mostra de cinema argentino “Birra, crise e poesia”. Ele é o diretor do já clássico “Pizza, birra, faso”, de 1998, longa no qual cinco adolescentes perdidos em Buenos Aires planejam um assalto – este filme marca o início do denominado novo cinema argentino. Adrián também foi indicado à Palma de Ouro pelo filme “Crônica de uma fuga”, de 2006. Bom, com essa apresentação, se pode esperar boa coisa do seu filme mais recente. Nele, um retrato de uma família é tecido pelo ponto de vista de uma adolescente. Adrián propõe um discurso ambientado na classe média, tendência argentina que chega também ao cinema brasileiro, como no último de Heitor Dhalia, “À Deriva”.

Defamation, 2009, Yoav Shamir, Isr/Austr/US/Din, Festival de Berlin, 91”

15
out
09

Tributo a La Negrita

Junto a Piazzolla, Borges e Gardel, Mercedes Sosa forma o hall das importantes figuras argentinas. Ela é, sem dúvida, uma das mais expressivas cantoras latino-americanas. “É”, no tempo presente, porque ela se recusou a morrer. Seu último álbum, “Cantora”, foi lançado este ano e vem acompanhado do registro visual das gravações em estúdio. Este documentário de 60 minutos, chamado “Mercedes Sosa – Cantora, un viaje íntimo”, mostra o making of da gravação deste álbum de duetos, depoimentos de Mercedes, nos quais ela retoma parte de sua trajetória, além dos testemunhos dos convidados. Se, por um lado, é visível o respeito que os convidados têm por Mercedes, é também impressionante a admiração que La Negra  dispensa aos cantores com quem divide o microfone. Tanto é que grande parte das músicas escolhidas para o álbum são dos convidados. São eles, entre outros, Caetano Veloso – com quem canta “Coração vagabundo” em português -, Julieta Venegas – artista pop mexicana que por aqui não chegou a fazer o sucesso que alcançou na América Latina -, Charly Garcia – é também um dos mitos argentinos, polêmico cantor, compositor e multi-instrumentista de rock -, Luis Alberto Spinetta – rockeiro argentino de grande sucesso na década de 70, por quem Mercedes dispensa grande empatia -, María Granas – que, segundo Mercedes, tem uma das mais lindas vozes -, e a brasileira Daniela Mercury.  A emoção com que La Negra canta e a crença na mensagem que passa – fique atento ao fim da música que canta com Spinetta – demonstram a devoção com a qual ela – e sua memória – deve ser tratada.

Mercedes representa muito ao patrimônio cultural americano, tanto musical quanto ideologicamente. É a maior voz do folclore latino americano e lidera um público heterogêneo. A música folclórica argentina é bastante difundida no país, inclusive entre os mais jovens. É também uma figura da resistência. Em 1979, em pleno regime ditatorial, ela e o público que assistia a seu show foram presos. Perseguida pelos militares por ser peronista, foi obrigada a se refugiar em Paris, voltando a Argentina somente em 1982.”Estava desesperada para voltar”, diz Mercedes durante o documentário.

“Cantora”, álbum duplo e documentário, foram lançados dois meses antes de sua morte. Com ares de tributo, Mercedes se despede cantando, na última cena do documentário, alguns versos de uma música de Charly Garcia. Bom, o que ela canta – capaz de impressionar até os não facilmente impressionáveis – fica pra quem tiver a oportunidade de ver o filme.

Veja aqui um trecho do documentário. A música é “Barro tal vez”, um dos hinos de Spinetta.

05
out
09

MTV exibe faixa de documentários musicais

Há pouco tempo voltei a acompanhar a programação da MTV Brasil. A emissora já havia me surpreendido com a simpática série “Descolados”, que acaba essa semana. Uma outra programação muito boa é o Doc MTV, faixa de documentários musicais exibida aos sábados à noite com reprise no domingo – os horários variam, é bom conferir pelo site da emissora. Neste fim de semana foi exibido “Brega S.A.”, documentário dirigido por Gustavo Godinho e Vladimir Cunha sobre a cena tecnobrega de Belém do Pará, movimento de grande apelo popular que agrega diversos ritmos, entre eles o já conhecido Brega pop – ou Calypso.

Boa iniciativa, já que muitos dos documentários são inacessíveis ao grande público – com destaque para “Ruído das Minas”, documentário sobre a cena heavy metal de Belo Horizonte realizado sem muitas pretensões como trabalho de conclusão de curso de dois alunos da UFMG. Não gosto muito dessa alcunha, mas a escolha dos filmes foi bastante democrática. Sábado que vem vou tirar minha camisa de flanela quadriculada do armário e acompanhar o “1991: The year that punk broke”, documentário feito em VHS que acompanha o Nirvana e o Sonic Youth em uma turnê pela Europa. Vale lembrar que o Sonic Youth está confirmado pro Planeta Terra. No fim do mês, será exibido “Mundo tributo”, documentário argentino sobre bandas covers que presta homenagem aos artistas anônimos que se transformam em seus ídolos. Nada mal assistir esses filmes e aproveitar o bom humor do programador da MTV.

Aqui, a programação das próximas semanas, tirado do site da MTV:

1991 – The year that punk broke:

O documentário acompanha o Sonic Youth e o Nirvana durante uma turnê pela Europa no final de 91, além de participações de Dinosaur Jr, Babes in Toyland, Gumball, Ramones, Mark Arm, Dan Peters e Matt Lukin, do Mudhoney, além de Courtney Love, e Joe Cole.
sábado, 10/10, 23h30
reprise: domingo, 11/10, 18h30

Queen – Days of our lives:

A história de uma das bandas mais importantes da história é passada a limpo nesse documentário. Apresentado por Axl Rose,  fã assumido da banda, o filme traz os integrantes do Queen em apresentações histórias, entrevistas marcantes e depoimentos bombásticos.
sábado, 17/10, 00h00
reprise: domingo, 18/10, 19h15

Mundo tributo:

Documentário argentino sobre as melhores bandas covers do mundo.
sábado, 24/10, 23h30
reprise: domingo, 25/10, 19h30

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Outras coisas:

Festival internacional de documentário musical, que irá ocorrer em março de 2010 em SP e RJ.




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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