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15
nov
09

Três em um: Tokyo!, de Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong

Seguindo a idéia de se fazer filmes sobre as grandes cidades do mundo, é lançado agora Tokyo!, longa metragem composto de três médias dirigidos pelos franceses Michel Gondry e Leos Carax e pelo coreano Joon-ho Bong.

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Interior Design, de Michel Gondry

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Merde, de Leos Carax

O seguimento de Gondry é o primeiro. Interior Design conta a história de dois namorados que se mudam para Tóquio e se hospedam na casa de uma amiga. Enquanto ele está empolgado pela exibição de um filme que fez e consegue um emprego, ela não consegue fazer nada, gostar de nada. Vemos na tela o drama de uma pessoa que se sente vazia e não se encaixa no mundo. O fim é surpreende mais pela solução visual que pelo roteiro em si. A resolução do conflito é fácil, mas fica maquiada pela modernidade da linguagem do videoclipe que Gondry maneja tão bem. Mesmo assim a maquiagem é bem feita e Interior Design consegue ser um bom filme.

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Shaking Tokyo, de Joon-ho Bong

Leos Carax dirige Merde. Merde é um homem meio monstro que sai pelas ruas de Tóquio aterrorizando as pessoas. O filme começa bem, mas aos poucos vai se estendendo em uma longa cena de interrogatório e julgamento que é enfadonha e de difícil compreensão. Algumas frases de impacto faladas por Merde nesse momento não fazem muito sentido. O filme perde o ritmo de ação e comédia do início e torna um filme arrastado. Com certeza o seguimento menos atrativo dos três.

No entanto, o filme termina com Shaking Tokyo, Joon-ho Bong, o melhor dos três médias. O filme é a história de um homem que se isola e não faz contato com ninguém há 10 anos. Um dos principais motivos para que ele se isole é não suportar o toque das outras pessoas. Mas o que acontece quando tocamos alguém? Joon-ho Bong faz do físico a expressão dos sentimentos humanos. A luz que nos cega momentaneamente, abalos que nos desperta medo, toques. Todo que parece exterior, na verdade, é interno.

Tokyo! é um bom filme, mas talvez a idéia de homenagear as grandes metrópoles deva mudar. Será que, ao invés de várias visões irregulares, uma boa visão de uma única pessoa não seria melhor? Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, é um bom exemplo disso.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Tokyo!”, de Michel Gondry, Leos Carax e Joon- hon Bong, 112 minutos

Sessões: Dia 15 de novembro às 17h

13
nov
09

Um pouco de autopromoção. Mas… Porque não? “Boca a boca”, de Márcio Werneck

bocaA denúncia social é uma das vertentes mais fortes do documentário. Em “Boca a boca”, documentário brasileiro idealizado pela  ONG Turma do Bem, é realizado um discurso sobre a saúde bucal do país. A origem da idéia pode gerar certo preconceito no público de cinema mais ativo: seu idealizador é o “dentista dos famosos” Fábio Bibancos e, diga-se de passagem, um documentário sobre saúde bucal feito pr um dentista não aparentar ser muito atrativo. Então, o que traz um documentário neste formato para um festival de cinema? Eu diria que é porque o filme é muito bem construído e não tem a cara de filme institucional, tornando-se atrativo, sim, a quem gosta de cinema. Além do mais, trata de um tema que é de importância de todos e poucas vezes foi colocado em pauta. A ilustração do “país de desdentados” é feita através de depoimentos de crianças e adultos que são afetadas pelo problema. Pessoas envergonhadas, humilhadas, de baixa auto-estima, crianças que sofrem bullying por sua aparência. O filme clama por uma ação conjunta, mostrando a dificuldade em se conseguir apoiadores para o projeto e a “vista grossa” que é feita pelo governo.

É bem verdade que há interferências bastante desnecessárias, como por exemplo, os da atriz Lu Grimaldi. Ela quebra o ritmo do discurso ao aparecer – em cenas ficcionais – olhando em um vídeo-assist os depoimentos de algumas crianças e, no único momento em que fala – em cenas documentais -, recebe um corte brusco de edição. Esse cacuete de alguns documentários que se obrigam a inserir ficção num filme que anda muito bem somente como documentário afetou o ritmo de “Boca a boca”. Mas o resultado final ainda é o relato emocionado de um grave problema social. E fica na memória a expressão da garota que sorri pro espelho depois de conseguir consertar seus dentes. A mesma que, no início do filme, tapava a boca com as mãos, envergonhada.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Boca a boca”, de Márcio Werneck, 55 minutos

Sessões: dia 14 de novembro às 21:20h e 15 de novembro às 17:50h com a presença do diretor e da roteirista

13
nov
09

“Tyson”, de James Toback: falatório incessante de um personagem que clama por redenção

tyson_movie“Tyson” é um filme extremamente verborrágico. Claro, grande parte dos documentários dedicam longo tempo ao falatório dos entrevistados. O que este filme tem de específico é extravasar esse conteúdo, num retrato obsessivo de um personagem que clama por redenção. Fui assisti-lo já sabendo que só iria encontrar relatos de Mike Tyson e algumas poucas imagens de arquivo. Encontrei a ilustração de várias conversas ao mesmo tempo, num efeito que dividia a tela, além da sobreposição de vozes, seqüelas do fluxo de consciência que caracteriza a passagem dos temas e do personagem que desata em discursos às vezes confusos.

Não consegui sentir simpatia por Tyson. Seu relato é monocorde, o mesmo tom com que fala de seu início no boxe, de suas vitórias, de sua família, usa para falar da sua acusação de estupro, da mordida em Holyfield, do problema com consumo de drogas, de sexo e gonorréia. Só interrompe este tom para falar de seu professor Cus, homem que teve grande importância em sua trajetória e a quem sua morte é o motivo encontrado por Tyson para justificar grandes erros de sua vida. Só falando dele Tyson consegue chorar. E só Cus consegue calar Tyson e é a única segunda voz que se escuta durante a uma hora e meia de filme. O documentário serve, talvez, aos psicólogos que queiram observar o transtorno de bipolaridade ou a algum aficionado pelo ex-boxeador. Sem ter afinidade com o personagem ou seu problema, assistir ao filme pode ser uma tortura.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Tyson”, de James Toback, 90 minutos

Sessões: Dia 13 de novembro às 18:10h, dia 14 de novembro às 17:50h e dia 15 de novembro às 17h

13
nov
09

“Tulpan”, de Sergei Dvortsevoy, é um dos melhores filmes do XI FIC Brasília

Não deixe esse filme passar. Ainda mais porque, ao que parece, ele não será distribuído. Reitero o que tinha falado em outro post: este é um filme que foge de definições simplistas. Não é um romance, não é uma comédia de costumes, não é um documentário. É, na verdade, tudo isso junto, realizado de maneira bastante fluida. Mesmo que o drama de Asa, o protagonista, não te afete, é praticamente impossível que este filme não te toque de alguma maneira. Ele é todo uma seqüência de personagens interessantes e complexos que, mesmo quando ausentes, deixam na sua falta uma marca forte. Feito pelo talentoso diretor cazaque Sergei Dvortsevoy, é uma das grandes unanimidades daqueles que o assistiram e merecedor de todos os prêmios que ganhou.

Asa retorna ao bando nômade onde vive sua irmã, em meio à estepe, depois de servir ao exército. Seu desejo é se tornar pastor, mas a regra é que para ganhar seu próprio rebanho, ele deve se casar. A única mulher solteira que conhece é Tulpan e será uma tarefa árdua conquistá-la. Nosso protagonista é um pouco desajeitado, não tem muito talento para pastor, tem orelhas de abano e é bastante inseguro e sensível. Este é o mote inicial do filme, que se desenvolve abrindo para diversos outros dramas. As ovelhas grávidas – cenas de forte caráter simbólico -, a menina que é impedida de cantar – grande personagem que protagoniza cenas muito bonitas – e até um camelo que segue, por milhares de quilômetros, outro camelo doente que é levado pelo veterinário. Faz grande uso do plano-seqüência em cenas de naturalismo e poesia. É um grande filme sobre temas universais.

Tempestades de areia, crianças travessas, cachorros, jumentos e música pop norte-americana completam este filme cômico-contemplativo que, talvez, possa ser definido como uma obra sobre homens e animais.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Tulpan”, de Sergei Dvortsevoy, 100 minutos

Sessões: dia 13 de novembro às 19:10h e dia 14 de novembro às 19:40h

[Update, 16/11: “Tulpan” foi um dos grandes vencedores do XI FIC! Prêmio bastante merecido. Para quem não assistiu, por causa da premiação, o filme certamente entrará em cartaz nos cinemas da Academia de Tênis José Farani.]

13
nov
09

“Hiroshima”, de Pablo Stoll: ensaio ou frustração?

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“Hiroshima”, de Pablo Stoll, não é um musical. Tampouco é um drama, romance ou comédia. É mais um filme demasiado cansativo que tenta transitar – ou subverter – as normas destes gêneros sem, ao fim, se identificar com nenhum. Fui assisti-lo com muita expectativa. Stoll foi co-diretor de “Whisky”, um dos filmes que mais gosto. No entanto, fui embora da sessão bastante desapontada e entediada

Juan, o protagonista, sai do trabalho, vai pra casa e vê um bilhete de seus pais. A ele são atribuídas diversas tarefas domésticas. Ele as realiza, sai de casa, encontra sua namorada, se despede dela e encontra alguns amigos. Passa o dia com eles. Anoitece e ele vai a um bar para se apresentar numa banda de rock. Fique tranqüilo(a), o enredo do filme, que contei aqui por inteiro, não faz muita diferença. Se este filme pode tocar alguém, é pela subversão de gênero – bem batida, diga-se de passagem – e pela beleza que alguns planos. O filme é todo uma seqüência de historietas, construídas a partir da linguagem de vídeo-clip. Cada uma dessas ações forma um núcleo que recebe um tratamento específico em imagem. O filme tem algumas “sacadas” que são interessantes como, por exemplo, a inverção da base dos musicais. A trilha sonora persiste em todos os momentos da obra e só falta na hora dos diálogos que, ou são sobrepostos pela música ou ocorrem no silêncio para depois ser mostrada uma cartela com os dizeres dos personagens. Situação que, de maneira previsível, se inverte ao final. Legal, né? Também achei, mas estendido por 80 minutos, passa a ser insuportável.

Para mim, ele é o ensaio do que poderia vir a ser um bom filme. Ou, o que poderia ter sido um bom curta-metragem.

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Em cartaz no XI FIC Brasília. Academia de Tênis José Farani

“Hiroshima”, de Pablo Stoll, 80 minutos

Sessões: 14 de novembro às 19:50h

13
nov
09

Tensão em “À Procura de Elly”, filme iraniano de Asghar Farhadi

Esqueça a imagem que você tem dos filmes iranianos. À Procura de Elly não é um filme contemplativo, poético. É um filme forte. Uma família sai em um fim de semana para passear com um parente vindo da Alemanha. Uma das mulheres da família, Sepideh, convida Elly, professora da filha, para conhecer Ahmad, o jovem homem já divorciado vindo do exterior. Tudo corre bem, até que algo inesperado acontece e toda a família começa a desmoronar. Ofensas, culpas, agressões, moral, honra… Tudo é discutido e jogado na cara de uns e outros naquela família que, aparentemente, é feliz.

ellyO filme é um drama com toques de suspense. Enquanto as questões familiares são postas, o espectador fica esperando para saber o que realmente aconteceu. O filme consegue manter a tensão até o último minuto. É mais que justo o prêmio que Asghar Farhadi levou do Festival de Berlim nesse ano – o Urso de Prata de melhor direção.

Sai a poesia e entra a rudeza das relações. O filme parece ser mais livre e direto para tocar nas questões que o cinema iraniano até então falava por metáforas. Não desmerecendo a produção iraniana consagrada até então, mas À Procura de Elly violenta até mesmo nossos conceitos.

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“À Procura de Elly”, de Asghar Farhadi, 119 minutos

O filme esteve em cartaz pelo XI FIC Brasília.

13
nov
09

É tão necessário assim? “Algo que Você Precisa Saber”, de Cécile Telerman

Algo que Você Precisa Saber começa tocando em um tema polêmico: um programa de rádio discutirá os erros dos pais que costumam ser repetidos por seus filhos. Uma mulher desliga o rádio e dá uma bronca no marido, que, depois de aposentado, tem como única distração ouvir o aparelho.

Nos primeiros minutos, tem-se a sensação de que o filme tratará das relações familiares, especialmente das relações filmes_789_Algo que Voce Precisa Saber 2entre pais e filhos. Engano. Aos poucos, o filme vai se revelando um simples desfile de personagens clichês e um segredo de família. O pai é apático e está aposentado depois de um problema cardíaco. A mãe é a típica matriarca megera rica que esconde seus problemas . O filho mais velho está endividado e sente dores no peito (chiliques) por conta disso. A filha do meio é a filha problema: artista, promíscua, drogada. A filha mais nova… e a filha mais nova? Até o fim do filme não se sabe qual é a função dela. Ela só aparece para pronunciar a “lição” do filme.

Transitando entre a comédia e o drama, Algo que Você Precisa Saber não faz rir nem chorar. É algo que ninguém precisa saber tanto assim.

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Em cartaz no XI FIC Brasília, Academia de Tênis José Farani

“Algo que Você Precisa Saber”, de Cécile Telerman, 100 minutos

Sessões: dia 14 de novembro às 15:30h




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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