Posts Tagged ‘retrospectiva

11
out
09

Os melhores filmes são aqueles que nós mesmos inventamos

Pra quem não vai ao cinema hoje e não sabe o que assistir em casa, dou uma dica de filme: “Rebobine, por favor”, de Michel Gondry, que aqui no Brasil passou pelos cinemas em maio. Espero que o texto dê vontade de ver o filme!

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be-kind-rewind

Quando os anos 80 começaram a dar sinais de retorno, primeiro na moda seguido pela sonoridade de novas bandas, muitos devem ter previsto o marco dessa estética também em outros meios. Michel Gondry é o expoente máximo dessa cultura oitentista dentro do cinema. Seu nome é sempre referenciado à produção de vídeo clipes de artistas como Bjork, Beck e White Stripes. Francês, iniciou seus experimentos – pois é assim que trata a imagem, como um papel branco entregue à mão de uma criança – na década de 90. Com o sucesso obtido tanto na publicidade quanto na produção de vídeo clipes, começou a realizar filmes. Toda a sua obra tem uma marca autoral, mesmo quando deixa o roteiro a cargo de Charles Kaufmann. Seu terceiro longa-metragem, “Rebobine, por favor” (“Be kind, rewind”), estreou em maio no Brasil. Aqui em Brasília, esteve em cartaz durante poucas semanas no cinema da Academia de Tênis.

O filme ainda ganhou uma exposição que rodou algumas capitais. Ali foi oferecido um workshop básico, roupas e objetos cênicos para que o público pudesse experimentar seu dia de cineasta, acompanhado de cenários que faziam alusão ao filme. Isso tudo para promover sua mais recente obra, uma comédia na qual Jack Black e Mos Def vivem uma dupla que, após apagar acidentalmente as fitas de uma locadora, passa a recriar os filmes destruídos de forma caseira. Integram a lista alguns clássicos como Os caça-fantasmas, Conduzindo Miss Daisy, Hora do Rush 2, Robocop, 2001 – Uma odisséia no espaço, além de vários outros sucessos. Adivinhar qual é o filme parodiado torna-se um dos momentos mais divertidos do visionado do filme. Também provocam risos os efeitos especiais do filme, principalmente nas cenas que o personagem de Jack Black está magnetizado, prestes a sumir tal qual o material das fitas VHS. Nesta cena, lembrei logo de Marty Mcfly, personagem de Michael J. Fox na trilogia De volta para o futuro, quando ele põe em risco sua própria existência por alterar todo o futuro em uma viagem acidental ao passado.

“É um tipo de utopia. Imaginei como seria se as pessoas fizessem filmes caseiros usando o que estivesse disponível na vizinhança, criando sua própria história e dividindo-a com a comunidade. Os personagens começam fazendo remakes até serem proibidos pelo FBI e pelos estúdios. Então, eles passam a filmar a história da cidade e um filme sobre [o jazzista] Fats Waller [1904-1943], porque acreditam que Waller morava no prédio deles.” (Gondry em entrevista cedida à Folha, 28/01/09)

Com freqüência, Gondry realiza em suas obras a mistura de mídias. Parece estar eternamente – e que esse eternamente não tenha um caráter valorativo – naquele momento de transição do cinema entre a película e o digital. Rever “The Pillow book”, de Peter Greenaway, realizado em 1996, nos dá uma amostra de como se deu a percepção dessa nova mídia. A mistura de texturas analógicas e digitais, o acúmulo de transições e sobreposições faz lembrar a popularização da câmera de filmagem. E o filme aprecia cada pausa estruturada nesses artifícios. É como se o processo de democratização iniciado pela filmadora VHS tenha atingido seu cume com a câmera de celular, transformando cada pessoa em um cineasta em potencial. Pensando nisso, Gondry convida o espectador a fazer seu próprio filme.

O suposto improviso e uso de certos recursos simples geram efeitos interessantes nas obras de Gondry, marcado também pelo uso engenhoso da narrativa. A grande bronca que o espectador tem do filme é o pouco tempo reservado às divertidas paródias, já que deve ceder espaço ao eixo principal da história. Outro ponto é a percepção de que o filme foi realizado nos moldes tradicionais da indústria. A proposta que é realmente radical, de se filmar uma única vez cada plano, fazendo a edição já naquele momento, fica restrito à mera ilustração, como se no cinema não houvesse espaço para esse tipo de experimentação.

Michel Gondry ama a música pop, os brinquedos de papel, desenhos animados, a arte contemporânea, nostalgia, Alain Resnais. Mais parece um adolescente velho, admirador das décadas de 80 e 90. Atitude irreverente que não pode ser confundida com entretenimento barato.

“What interests me is that technology filters down to poor people. If you go to a poor neighborhood, you will see cars from the ’80s. Reviewers have criticized me for showing an all-VHS store, but I think it’s possible that one might exist in a working-class neighborhood. I don’t like the idea that videotapes don’t exist anymore because they’re not being sold by corporations. You shouldn’t destroy your VCR because the quality of DVD is better. I like to look at what’s modern in history. That’s why I picked Fats Waller. His music hasn’t aged. It’s out of fashion, out of time. If you look at things that have dated, they’re trying to be a product of their time without being truly modern. If you look at the ’80s, you can see bands like Duran Duran and think, “Oh, the ’80s were horrible,” but that’s the wrong idea. At the same time, there were creative people like the Talking Heads. Their modernity remains forever.” (Gondry em entrevista ao site americano studiodaily, 22/02/2008)

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07
out
09

À Deriva, filme de Heitor Dhalia

Ainda contrariada pela não indicação ao oscar de “À Deriva” – que não chegou a ser inscrito pelos seus produtores para concorrer à vaga -, encontrei esse texto que escrevi na ocasião do lançamento do filme e que publico aqui, à espera de seu próximo filme: um noir com características de road movie chamado “Uma mulher e uma arma”. O longa ainda está em fase de pré-produção e terá como cenários a cidade de Buenos Aires e a Patagônia, na Argentina. Dhalia é um dos fundadores da Cellululoid Dreams Brasil, filial da renomada produtora francesa, empresa que tem como principal objetivo produzir longas que possam atingir o mercado local e internacional.

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aderiva

O terceiro filme de Heitor Dhalia, depois dos exitosos “Nina” e “O cheiro do ralo”, chega aos cinemas em junho. “À Deriva” teve sua estréia no festival de Cannes deste ano, sendo exibido na competição paralela da mostra Um Certain Regard. A escolha deste festival para a primeira exibição do filme não foi feita ao acaso. Além de representar um trampolim para qualquer filme, “A Deriva” leva características que o situam neste ambiente e na trajetória do próprio festival. Dhalia afirma ter nos cineastas franceses grande parte de sua influência: “É uma história e um estilo que tem muito a ver com uma certa tendência do cinema francês, de diretores como (Eric) Rohmer e (François) Truffaut, dos filmes de jovens adolescentes, e também do italiano, sobre férias de verão e família”.

Descrito pelo diretor como um filme pessoal, mas não autobiográfico, tem todo um clima de lembrança, a começar por se situar na década de 80 – parece um velho recordatório de antigas férias de verão. Nos é apresentado o drama de Filipa, uma adolescente de 14 anos que passa as férias com a família no litoral. A menina se depara com suas primeiras descobertas sexuais ao mesmo tempo que presencia a crise no casamento dos pais e descobre o envolvimento do pai com uma amante, pivô de uma iminente separação do casal.

O drama da obra funciona como rito de passagem entre a infância e adolescência da protagonista. O filme aborda questões amargas com suavidade em seu tratamento. Acompanhamos o filme pelo ponto de vista de Filipa. Ela vê a sua família se dissolvendo e, junto ao espectador, tenta entender o que está ocorrendo com os pais.

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Foto: Flickr de Alexandre Ermel

29
set
09

“Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, irá achar praias”

Chega ao Festival de Cinema do Rio “As praias de Agnès”,  último e derradeiro filme de Agnès Varda. Ela, a garota em meio aos rapazes da Nouvelle Vague, está hoje com 81 anos e acumula uma inquieta obra que conta com, além de ficções e documentários, fotografias e pinturas. Neste documentário autobiográfico, Varda fala de sua vida e de sua infância, trazendo como principal memória a imagem das praias que marcaram sua história. É um filme de despedida.

É muito fácil gostar da Agnès, principalmente sendo mulher. Os seus filmes não se encaixam numa política de gênero, mas trazem certa afetuosidade feminina a qual é difícil não se identificar. Seu olhar delicado repousa sobre temas acres, tece retratos de mulheres fortes e controversas. Tenho um postal dela colado no meu quarto, presente de alguém especial que viu essa foto em meio a várias outras e sem querer a escolheu. Presente certo que deixou na parede uma presença. Saiu na ilustrada de ontem uma pequena entrevista com a diretora que, mais do que me dar vontade de assistir ao “As praias de Agnès”, me lembrou um outro filme dela (título deste blog) que me marcou bastante e que também fala de morte, memória e praia.

“Como ninguém reclamou o corpo, foi enterrada em uma vala comum. Ela tinha morrido de morte natural sem deixar rastro. Imagino se quem a conheceu criança ainda pensa nela. Mas as pessoas que ela tinha conhecido recentemente se lembravam dela. Essas testemunhas ajudaram-me a contar as últimas semanas de seu último inverno. Ela deixou sua marca sobre eles. Eles falavam dela, não sabendo que ela tinha morrido. Não quis dizer a eles. Nem que o nome dela era Mona Bergeron. Eu mesma sei pouco sobre ela, mas parece-me que ela veio do mar.” (transcrição da narração de um trecho do filme)

Em “Sem teto nem lei”, Agnès faz uma apresentação comovente de sua protagonista, Mona, e sai em busca de seu passado. Uma andarilha morre de frio e numa espécie de “Cidadão Kane” feminino e desglamourizado, ela é analisada, após sua morte, pelos olhos dos outros, interrogados pela câmera de Varda e com a narração da própria autora. Mona, uma figura desajeitada que quase passa despercebida – oposta a ostentosa Cléo, protagonista de outro filme de Agnès -, reflete a generosidade e arrogância daqueles com quem se relaciona. Ela ri sozinha e mantém uma postura altiva, transformando-se num personagem cordial. É um bom filme para ser visto e revisto.

Duas imagens de “Sem teto nem lei” e a fotografia da parede, “Sofia Loren em Portugal”

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Outras coisas:

Reportagem da Folha de São Paulo sobre o novo filme da Agnès Varda

Cinemateca da embaixada da França




Rafaela Camelo

Brasiliense, audiovisualista, interessada em ver, comentar e trocar experiências sobre cinema.

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